Classificados do 31º Concurso Literário “Noite Nacional da Poesia”

 

CONCURSO 31ª NOITE NACIONAL DA POESIA

CLASSIFICADOS EM NÍVEL NACIONAL

1º lugar – “O Exílio, a Cruz, e o Gado

Autor: Nicoly Valaska dos Santos (São Paulo – SP)

Minha terra tinha palmeiras,

Onde cantava o sabiá;

As aves, que aqui granjeiam,

Não adoecem como lá.

Nosso solo tem mais soja,

Nossas várzeas tem mais cana,

Nossas águas mais nitrato,

Nossa sina mais credores.

Em pasmar, sozinho, à noite,

Mais fumaça encontro eu lá;

Era noite às 3 da tarde,

Sobrou gado pra piar.

Minha terra tem horrores,

Que tais não encontro eu cá;

Em ralar, sozinho, à noite,

Mais larvas eclodem lá;

Há minério de barragem,

Onde cantava o sabiá.

Não permita Deus que eu morra

Da ração que ingeri lá;

Sem que paguem os pecados

Da “Campanha pra Matar”;

Sem que paguem os Senhores,

Que me afanam o cocar.

Não permita pai que eu morra

De ufanismo bestial;

Sem que apurem bem os fatos

Da tela do celular;

Sem que enfim descanse a terra,

Onde cantava o sabiá.

 

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2º lugar – Mães Pretas

 

Autor: Leandro Mendes Melo ( São Luis – MA)

O tic tac do relógio

Não consegue suprimir

O sentimento que aflora

O rosto que de medo cora.

 

O bate bate do coração

Não consegue apagar

O gatilho puxado

O coração dilacerado.

 

O vai e vem da ambulância

Não consegue apaziguar

A tia que consola

A irmã desesperada que em pranto chora.

 

O abraça preto d’outro filho preto

Não consegue alcançar

A dor de mãe preta

Que, mais uma vez, de luto está.

 

As idas e vindas incessantes na delegacia

Não consegue explicar

Porque o senhor policial atirou

No filho preto de mãe preta sentado no sofá.

 

Mãe preta derrama seu choro preto

E na sua solidão preta pergunta aos seus orixás:

Que mal fez ela para ver seu povo preto sendo morto

No trabalho em casa e nos becos da favela.

 

Mãe preta senta no sofá, do lado oposto

onde seu filho preto foi morto “de bala perdida”

que de perdida foi e sempre é achada em corpos pretos

num confronto com bandidos pretos.

 

Mãe preta liga a televisão branca

Ver notícia da crise branca

E nem se incomoda, pois, a crise preta tem 487 anos, conclui que os jornais cansaram de noticiar essa crise que parece que nunca vai acabar.

 

Mas o que destrói mãe preta mesmo

É saber que os filhos pretos de mãe preta vão continuar pobres

E enquanto uma dúzia estuda

Outras três dúzias vão continuar a levar bala perdida

Até serem achadas aqui do lado no IML nos corpos pretos dos filhos pretos de mães pretas.

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3º lugar – Olivetti verde

Autora: Josiane da Silva Ferreira Althaus – Macapá – AP

 

A minha Olivetti verde era pequena e portátil

Era a minha caixinha de guardar segredos

Quando eu era menina, unia letra por letra

Numa agilidade inacreditável

Parecia uma pianista que toca o instrumento

Sem olhar a partitura

Um belo dia escrevi uma carta de amor,

Sem rasura, sem vergonha e sem medo,

Fui contando-lhe tantas palavras

Que não cabiam numa folha em branco

Eram tantos sonhos que transbordavam

Pensamentos

E suas teclas arredondadas eram cúmplices

das minhas histórias, algumas ainda rascunhadas

numa folha de papel amarelada e outras

delicadamente escritas num diário secreto

A minha Olivetti verde

Era uma dança flamenca ou o bolero de Ravel

Suas teclas eram harmônicas

Como passos num tablado

Como uma festa entre amigos

E entre tantos sussurros

No final do dia,

Já cansada e quase sem forças

Eu dizia-lhe boa noite

Despedindo-me com a certeza

De que a minha Olivetti era a minha confidente

 

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4º lugar A meio caminho

Autor:  Pablo Cermeño Mendonça Kaschner (Rio de Janeiro – RJ)

 

No meio do caminho tinha um caminho.

No meio do budismo, um caminho do meio.

Só no meio do meio é que não tinha nada

ou, se tinha, não havia.

 

No meio do caminho tinha uma letra.

No meio do caminho tinha o i

i

 ndicando onde ir

assertivo, como exclamação às avessas.

 

Mais me pergunto que afirmo.

Aprendi a não saber

            .nem se tinha caminho

                        .nem se havia meios.

E, se nada sei – se nem nadar eu sei

mergulho de cabeça na ignorância

da certeza que ficou pelo caminho.

 

Perguntam-me que fazer

se nos deparamos com uma pedra no meio do caminho.

Ora, digo eu,

                        uma pausa, um gole no café e ares de mestre ignorante, a ensinar o que desconheço:

ou naufragamos

ou fazemos como a água – contornamos.

 

Contornemos, pois.

Não tornemos ainda mais cansadas estas vistas já tão fatigadas.

 

A vida é curta, a arte é longa e o caminho é o meio.

 

No fim das contas, tudo é o caminho:

o fim

o início

o início do fim

a letra f

tudo é o meio.

 

Até a mensagem.

 

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5º lugar – Autor não autorizou publicar

 

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6º lugar – Domingo

Autor – Luiz Carlos Giraçol Cichetto (Araraquara – SP)

 

Pois façam silêncio, que é manhã de domingo,

Tem senhoras na missa e senhores dormindo.

 

Silenciem os escapamentos das motocicletas,

E girem sem barulho as rodas das bicicletas

Calem crianças chorosas, silenciem os gatos,

Emudeçam os cachorros, enxotem os ratos.

Desliguem a festa e apaguem a fogueira santa,

Deixem o barulho para depois, antes da janta.

 

Pois façam silêncio, que é domingo meio dia,

Tem senhoras fazendo almoço por covardia.

 

Silenciem teclados de máquinas de escrever,

Gemam em silencio as dores de sobreviver,

Calem meninas medrosas, e silenciem as lutas,

Emudeçam os carros e enxotem as prostitutas,

Desliguem o rádio e apaguem aos seus desejos,

Deixem barulhos para depois, antes dos beijos.

 

Pois façam silêncio, que ainda é domingo de tarde,

Tem casais de velhos gemendo com ferida que arde.

 

Silenciem os ruídos das molas da cama,

Gemam sem barulho rolando na grama,

Calem meninos que jogam futebol no asfalto,

Emudeçam o ladrão que lhe toma de assalto,

Desliguem a televisão e apaguem todas as luzes,

Deixem o barulho para depois, antes das cruzes.

 

Pois façam silêncio, que ainda é domingo à noite,

Tem senhoras e senhores chorando com o açoite.

 

Silenciem as lágrimas de pensar em segundas-feiras,

Gemam sem silêncio, na oração secretas das freiras,

Calem a música romântica, silenciem pássaros canoros,

Emudeçam as línguas, quebrem aos aparelhos sonoros,

Desliguem os aparelhos e apaguem os sonhos e a sorte,

Deixem qualquer barulho para depois, antes da morte.

 

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7º lugar – rasgo

 

Autor – Alan George Félix Mendonça (Fortaleza – CE)

 

o marido houvera rasgo

os seus poemas de sustento

ela caiu

 

    tinha um filho

    e dores durante o sexo árido

    sem chuva

    nem profetas

 

(desconhecimento irrestrito das tempestades)

 

tinha os olhos da cidade a vigiar seus dias,

suas roupas e cabelos

e o seu rosto matinal de compromisso

 

tinha os sussurros de toda a gente

com os lugares-comuns do texto inerte

a vigiar os seus

tempos

do sem-ontem,

do sem-hoje

e do sem-futuro

 

(além do filho, talvez)

 

e o que houvera de poema

 havia de rasgo

 

passou,

então,

a escrever nos riscados d’água

qualquer poça ou molhado de azulejo

e

      guardara

(se não o texto)

a sensação

o gozo da palavra a proa-vida da palavra e deus-a-livre da falta da palavra do sem-penas-as-asas da palavra nem que nada seja no inverso da palavra 

 

nem que tudo seja a imagem fugidia na água

antes do choro do sexo seco e sem-sentido

           sustentado

na vigília da cidade despalavrada

de escrevivências

 

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8º lugar – ONTOLOGIA POÉTICA

 

Autor – Éder Rodrigues (Porto Seguro – BA)

 

 

Para inventar um pássaro

Não é necessário

ter visto o céu

ou as fabulações de azul.

 

Para inventar-se pássaro

Basta suspeitar

da possibilidade do voo.

 

[O resto é o que chamam de poesia]

 

Ou tudo aquilo que,

não sendo,

feito asa se despede.

 

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9º lugar – Menina passarinha

Autor – Luciano Cantero dos Santos  (Foz do Iguaçu – PR)

Corre negrinha

Entre as balas perdidas

das armas enlouquecidas

Corre negrinha.

 

Mochila nas costas

Desespero nos olhos

Pelas ruas vermelhas

Corre negrinha.

 

Se esgueirando pelas valas

Voando por entre as balas

Vai menina passarinha.

 

Pelos becos dessa senzala

Pela mãe que não quer chorá-la

Corre… corre negrinha.

 

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10º lugar – a cor da paixão

Autor: Flávio Rubens Machado Queiroz (Cabo Frio – RJ)

 

amarela – azul – vermelha

                        pathos – cura – medo

 

todas as palavras, todos os significados

não sei em que casa o sol estava quando nasci
aprendi a sentir teu cheiro nas manhãs no calor dos abraços
investigando os abismos que cavamos

descubro atalhos para te seguir na trajetória dos cometas em teu céu

e se por acaso perguntares o que sinto

quando te beijo de olhos fechados, não responderei

 

a velocidade da explosão da estrela morta

atravessa a noite espessa

ensina o caminho para os vaga-lumes, astros vagabundos em rota de colisão

gozo, choro, confesso crimes banais

enquanto a chuva escorre pelas paredes, sobressaindo um filete negro

imagino o teu rosto para não que te apagues da memória e o amor sobreviva

 

à noite desafiar a família a polícia

extasiado por tuas coxas, a respiração, o jeito que passas as mãos pelos cabelos

 

chamo- te por obscenos nomes, angústia de bocas secas, febris enganos

vivo em perigo iminente

 

o vento derruba árvores, murmuram pássaros, coro de cigarras

música das águas descendo os grotões

finjo não querer a presença de teu corpo moreno

canto uma canção sem motivo, peito apertado, suor na camisa

planejo desatinos

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CLASSIFICADOS QUE CONCORRERAM POR MATO GROSSO DO SUL:

 

1º Lugar – CANÇÃO PARA MIM ESMO

Autor: Fábio Fernandes Gondim (Campo Grande)

Estou a esmo de mim.
Inchado de andança e cansaço,
Pássaro descalço.

 

Posto à parte, ermo de mim.
Exilado de meu bando e de meu abraço,
Pássaro em falso.

 

Órfão de olhares,

De gestos e dissabores.
Roendo os lábios do bico osso,
Pássaro insosso.

 

Quando no fim
Eu plantar estrelas dentro em mim,

Qual bússola de nervo e lume
A guiar-me às linhas migratórias;
Do grito cuspir hóstias de prosa,
Do verso brotarem asas de aço,
Pássaro regresso.

 

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2º Lugar – MATARAM TEREZA

Autora: Eva Vilma de Souza (Campo Grande)

Tanto que sonhar

nesse desassossego da vida!

Tanto que escavar

no deserto das possibilidades,

no fossário das plenitudes

e mataram Tereza!

Oh, minha deusa!

 

Tanto que desmantelar

na prisão dos desejos!

Tanto que margear 

emboscadas soturnas,

visões nauseabundas

e mataram Tereza!

Oh, minha deusa!

 

Tanto que escrever liberdade,

abraçar emoções

sentir sem pecados

gozar sem culpas

andar sem medos,

e mataram Tereza!

Oh, minha deusa!

 

Tanto que quebrar correntes,

juntar os cacos

resgatar as crenças,

reaver essência…

Mas Tereza jaz.

A fome de vida interrompida

antes de ser saciada. 

 

Tereza jaz,

esta que ora é Maria,

ora Joana, Serafina.

Tereza jaz,

esta que é preta, branca, índia,

esta já sem rosto

esta que viu, ouviu, sentiu

silenciou.

 

Tereza jaz,

na dor do poema

na esquina dos medos

e na força do BASTA!

 

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3º Lugar – A NOIVA MORENA DO CERRADO

 

Autora: Walesca de Araújo Cassundé

 

Setembrou –

e Iansã deu o ar da graça  – ventos cortantes

varreram a poeira vermelha do asfalto,

granizos fustigaram e raios alumiaram

todos os cantos do planalto.

 

Xangô, que acompanhava os passos da amada,

irritou-se com tanta sujeira acumulada

e lançou um balaio de gritos retumbantes.

 

Aos berros, acordou todos os viventes do mar de Xaraés

apavorandoo povo das serras, planiceis e chapadas

que, protegidos invocavam desesperados

a mansidão de Oxumaré.

 

Eu, que a tudo assistia desde a véspera,

através da janela envidraçada,

bendisse cada gota de água derramada.

 

Há meses que a mãe natureza se enfureceu

com o desmazelo dos filhos da terra,

e o fogo grassa sobre os domínios de Oxóssi.

 

Arroboboi! Salve o Senhor das águas supremas!

 

Enfim os ipês brancos estão livres para derramar suas floradas;

com elas o cerrado se engrinalda

e a Morena se rende, faceira,

aos encantos da primavera

 

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4º Lugar – MAGNITUDE DO AMOR

Autora: Maria Gorete de Moura (Campo Grande – MS)

 

Pinte meu cabelo!

Ele amadureceu precocemente,

mas ainda quer se balançar

feito ipê viçoso!

Pinte minha boca!

Ela almeja extrair

o néctar dos batons.

Pinte meu ventre!

A maternidade trigêmea

dentro dele grita!!!

Pinte as minhas pernas!

Elas necessitam correr

para o Exército da Boa Marcha!!!!!

Pinte as unhas dos meus pés

com todas as cores!

Elas querem respeitar

as diferenças…

Só não pinte os meu

olhos,

pois eles são as janelas

de tudo que ainda vejo

e desejo alcançar:

a

 magnitude do

Amor.

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5º Lugar – INOCÊNCIA

Autor – Raphael Albertoni Gonçalves (Maracaju – MS)

 

Foi comprar balas de mel

E não mais a vi voltar

Acaso se perdeste nas vitrines

Ou se prendeste a algum olhar?

Onde está, Inocência?

 

Na desilusão do reencontro

A um vento eu pergunto

Onde se esconde Inocência

Nesse vasto e denso mundo?

 

E eis que o vento responde:

“Estou perdida em meio à estrada

A contemplar em silêncio à ponte

Se não me vês aqui parada

Olhas bem para o horizonte

 

Ficarei à beira da estrada

Esperando alguém que conte

Uma história, um conto de fada

Ou ainda alguém que aponte

Um caminho no meio do nada

Tu comigo não mais percorrera

Quando a maturidade o envolvera

Tuas mãos as minhas soltaste

Não fora eu que me perdera

Foras tu que me abandonaste

 

Talvez um dia me revejas

N’um barco à vela ou de papel

Recordarás então da essência

Da tua antiga paciência

Que via o claro azul do céu

Por dentro cheia de confidências

Por fora vestida de inocência

Indo comprar balas de mel”

 

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6º Lugar – ANTIGAS FOTOGRAFIAS DE CAMPO GRANDE

Autor – Diobelso Teodoro de Souza (Amambai – MS)

 

Antigas fotografias de Campo Grande

Vestem as minhas lembranças.

São partes das vísceras e dos passos

Dos que, como eu,

Brincaram a infância aqui.

 

Compõem e definem a Identidade,

O Curriculum Vitae e a herança

Dos que pertenceram, pertencem

E pertencerão às suas ruas.

 

A Vila Ferroviária encolhida

Com seus paralelepípedos alinhados,

A Afonso Pena robusta e a Mato Grosso

Com suas árvores centenárias gordas.

 

Os primórdios da 14 de Julho, Calógeras,

13 de Maio, Barão do Rio Branco…

Revestidas de calçadas rudes e carroças

E de casas e lojas que não existem mais.

Os vultos de pessoas e carros antigos

O crepúsculo abocanhou para sempre.

 

Os Cines Alhambra, Rialto, Santa Helena…

O tempo insidioso trincou as fotografias

Que tremulam amareladas

Em minhas mãos parkinsonianas,

Deixando pegadas úmidas em meus olhos.

 

A ternura envolve meu coração pastoso,

Enternecido e taquicárdico.

É quase impossível não escorrer

Gotículas desajeitadas pela minha face.

 

E quando chega o dia 26 de Agôsto

O melhor que a minha idade permite

É abrir uma janela larga da tarde

Para algum horizonte possível.

 

Como eu não tenho mais a quem recorrer,

Eu me deleito na saudade e melancolia

Que me invade completamente.

 

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7º Lugar – SONETO SOBRE A FEITURA DE UM SONHO DE AMOR

Autor – Diego Rorato Fogaça (Campo Grande – MS)

Reflito, espero, inspiro, espero e nada.

Conto as sílabas do primeiro verso,

reconto os cigarros, fico disperso –

enfim primeira quadra terminada.

 

Tem algo original a ser liberto
ou pelo menos deveria ter.
Ideias confusas, não sei ao certo…
Deixo uma rima pobre acontecer.

Me distrai mais um trago de bebida.

Insisto, pois soneto é disciplina,
mas tudo isso é batalha perdida.

 

Desisto porque você me domina:

ganhaste então, além da minha vida,

mais um soneto de amor. Triste sina!

 

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8º Lugar – CANINDÉ

Autora – Michele Eduarda Brasil de Sá (Campo Grande – MS)

Barulhada

Mesmo na terra

Nublada

Tem pôr-do-sol

Na retina da ave

Circundam-na

Rios negros

Sulcos profundos

De um tempo que não tem fim

 

Arara, arari, araraí

Arara ri

Asa amarelazul

Feita de céu e de sol

Enche-me a tarde de cor

Ainda que cinza esteja

O meu coração.

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9º Lugar – PRECE

Autor – Luis Rosado Costa (Campo Grande – MS)

 

Em meio aos esplendores da estação fria,

Com o sol que tudo ilumina e nada aquece,

Achava-me co’os joelhos dobrados um dia,

Desolado aos céus elevar minha prece.

 

Para a grande força divina pedia

-A mesma que de mim tantas vezes se esquece-

Que o eterno vazio que minh’alma judia

Fosse… Como um dia se acaba quando anoitece

 

E ia morrendo lentamente o coração,

Cobrindo-se co’a mortalha no fundo seu;

Minh’alma caminhava de encontro ao chão,

As preces caminhavam de encontro ao céu

 

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10º Lugar – JANELAS

Autora: Tânia Mara de Souza (Campo Grande – MS)

no meio do quintal do dia, havia uma menina

tecia prece depressa que medo logo vinha

a prece, o pai, a pinga, a sina

 

havia dor que doía pele púrpura

coração desfeito de tão triste ser criança

 

no meio do quintal da tarde, havia paisagem sagrada

o azul era lindo como o vestido da mãe na velha fotografia

a menina sonhou um Se

 

vislumbrou no azul a janela de Deus

e chutou: (alma gritou gol)

mas o silêncio acolhia melhor

o medo, a espera, a quimera

será que bola, chute… coisa de menina não era?

 

A bola de meia e trapo e tempo furou o azul

e se foi

 

no meio do quintal poente, havia menina a espera

mas não ouviu a bola quebrando janela

intacta, inexata vidraça que a separava de Deus

 

aquietando no lusco fusco sua sina

menina ainda pensou

“decerto que depois das nuvenssó silêncio haveria”

 

e a cidadedormiu tranquila as injustiças de suas belas portas

fechadas e fachadas