Retângulo de cantos arredondados: Os 10 poemas ganhadores do concurso literário XXII NOITE NACIONAL DA POESIA 
1º lugar

... E LÁ VOU EU, MEU PANAPANÁ, NA ALEGRIA DO SOL
Autora: Mariza Baur

lagarta esperei
troco de pele, teço meus fios
me fecho em casulo
crisálida estou

boto asas de seda
me pinto de azul, violeta, carmim
abro a janela, me entrego pro vento
borboleta sou

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2º lugar
O relógio
Autor: Mário Donizete Massari

O relógio já não acompanha
os meus movimentos
antecipa-se, veloz,
e posta-se à frente
dos meus calculados propósitos.

Se girasse os seus ponteiros
no sentido anti-horário
(dezenas de vezes, centenas, milhares...)
convidá-lo-ia para uma
caminhada matinal
pelo parque.

À tarde
faríamos a sesta
no avarandado do sítio
com vista para o fazer
nada.

Conversaríamos sobre:
- o amor estampado no acasalamento dos pássaros
em festa pelos pomares
- a chuva que, eventualmente, caindo lavasse as
nossas
almas
- a avalanche de insetos que desenhariam nos céus
um balé enlouquecido
- meu cão amigo que, certamente, vigiaria
nossos olhares
- música leve, paixões ardentes, entregas desmedidas
versos inacabados....

Tê-lo-ia como amigo
primeiro
mesmo ciente de que, ele,
em sua missão inadiável
não pararia jamais
e ao meu descuido
todos aqueles bons momentos
seriam, certamente, tragados.

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3º lugar
Veleiro
Autor: Éder Rodrigues da Silva

Fazia barcos como se erguesse morada
Espelhava angústia no juntar das tábuas
E pregava firme no sono de ser.
Preparava-se para o mar, mas ainda era leve.
Breve por não conseguir morar de vez em si.
Menino-homem numa barba que dava dó.
Acordava assustado e não saia que era só.
Fez tantos barcos que a vida salgou
os peixes que não sentiu nas mãos.
Quando criança tanto partiu nos de papel
que o rio passou a assoviar ventos
bem maiores que seu sopro podia.
Ardia na infância ancorada no peito sem prumo.
Partia sem sair do lugar, acenando saudade
aos que já se enraizaram em terra firme
ou se entrevaram pelo peso do casco.
No mundo só tinha ido até onde dava pé.
Nunca aprendeu a nadar por medo
de trair o coração e o colo dos barcos.
Como eles, engolia cada lágrima salgada
de uma travessia que jamais se atreveu
no catecismo corrente e alagado do corpo.
Colecionava embarcações e
fazia da sobra da areia do rio, o cais do porto.
Tinha febre no jeito de velar pelas águas,
na ânsia de sumir pela vida.
O sertão sem veias naquela lonjura de embaçar
a vista, ditava o raso da fundura dele.
Velho esquecia dos lenços e acenava ao desejo
dos que nunca iam como se já não tivesse cura.
Um dia cansou de ser barco e alçou
O homem no ricardo-rio que o viu nascer.
Sabia que dentro do batel, homens velejam feito
ilhas, e se cercam do silêncio por todos os lados.
Assim nenhuma palavra pesaria dentro dele
prestes ao medo das coisas lá do fundo.
Nesse dia não avisou. Nesse dia fazia anos
e no costume de nada acontecer nem se lembrou.
Nunca doeu de paixão. Nem teve juízo para despregar
deus da parede e pedir um desses sonhos de gente grande.
Partiu se despedindo de ninguém
como palavra afogando poemas
onde a água por tamanho rasa,
enche ouvidos e a boca de areia.
Regressou naquele corpo sem praia boiando
e anônimo ao mar que nunca surgiu no horizonte dele.
Voltou o homem deitado como barco
Viveu o barco atracado como homem.

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4º lugar
Roma Negra
Autora: Lilia de Oliveira Rosa

Sol
Sal
São
Salvador

Sálvia
Salva dor
Salus
Saúde

Salermo

Santo
Saint

Simon

Salve
São
Salvador
Roma negra

Soteropolitano
Sou
De cor romã tropical.

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5º lugar:
Recortes de um dia
Autor: Evandro Gastaldo

O despertador toca:
São dez para as cinco,
Não sei se da manhã ou da madrugada,
Só sei que de um outro dia.

Na TV um “FarWest” antigo
Com Kirk Douglas,
Bons tempos de violência
Sem barbárie ou injustiça;

No frigorífico,
As almas mortas
Cultivam as carnes vivas.

Um 710 alemão passa,
Seu baú arranhado por arbórea
Garras tupiniquins.

A impiedosa e faminta manhã
Transpassa-nos como
Num “harakiri” sagrado,
Salvífico e cotidiano.

A glutona tarde nos digere
Num repasto itálico e bonachão,
Cimitarra que divide o dia da noite,
A pagã motivação da sagrada preguiça.

O incandescente crepúsculo,
Como uma navalha horizontal, fina e quente,
Penetra os nossos olhos.

A boca da noite engole-nos de súbito!
Somos ruminados,
De modo lento e cadenciado
Por toda a madrugada.

E acordamos assustados,
Pesadelos de crime e castigo
Interrompidos pelo badalo:
Desperta a dor de mais um dia.


Continua......