Sobre a UBE/MS

Um histórico de inclusão pela literatura.

Por Guimarães Rocha

A existência da entidade é fruto da decisão de poetas e escritores do Estado de Mato Grosso do Sul, que, na década de 80, por entre sonhos e buscas de realização na literatura independente e na liberdade poética, buscaram também a legalidade institucional

Quando realizamos a cada ano em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, a Noite Nacional da Poesia, que em 2009 completou a sua edição de número 22, sob a égide da UBE/MS e seus parceiros, admiramo-nos com este fator de humanização da cidade e do Estado. É o único município brasileiro a atingir esse estágio de realização num regular e institucionalizado concurso de poesia. Essa valorização tem uma grande causa inicial, e isso é o que revelamos neste artigo, começando pelo marco inicial da Associação dos Escritores Novos (AEN) e Movimento dos Escritores Independentes (MEl), cuja potencialidade funciona como um ” Big Bang”. Tal fenômeno foi o que colocou a girar um universo o qual prosseguimos cultuando, a saber, o conjunto de esforços literários de produção, aperfeiçoamento e inclusão de talentos no banco da literatura sul-mato-grossense, cuja identidade ainda se busca evidenciar.

Se a UBE/MS respira É graças, em grande parte, à evolução da sua “Noite da Poesia”, temos que, a primeira edição desse mais expressivo evento, em Campo Grande a 21 de maio de 1983, às 19h00 no Paço MunicipaL, sem caráter explicitamente competitivo, consistia na apresentação poética basicamente inaugural dos participantes. Esses, praticamente todos, eram emergentes da Associação dos Escritores Novos (AEN) e do Movimento dos Escritores Independentes (MEl), que reuniam integrantes de várias cidades do Estado. A 22 de maio de 1989 (Decreto Municipal n° .5.882) o concurso literário era institucionalizado, tomado uma realização anual conjunta da UBE/MS e Prefeitura Municipal de Campo Grande, com o objetivo de estimular o aprimoramento da produção no segmento Poesia.

Marcando a primeira Noite da Poesia: os trabalhos poéticos de Altair Batista de Oliveira. Hélio Ferreira, Denise Dal Farra, Lídia Duailibi, Antônio Papi Neto, Rachid Salomão, Antônio Dias Ropeli, Ângela Maria Perez, Marluci Brasil de Castro, Guimarães Rocha, Orlando Silvestre Filho, Gutemberg Honorato de Moura, Alex Fraga, Benedito C. G. Lima, Emmanuel Marinho, Isaac David Espinosa,. Liliane Massad, Marcos Gouveia, Ivo Marcos, Luis Antonio Torraca, Alaíde Corrêa de Oliveira, Tatyano Miguel Nascimento e Artêmio Sanches.

PRECURSORES: AEN e MEl

Na raiz dos fatos históricos a nos levarem à fundação da UBE/MS, temos a ação de p ersonagens que se inquietavam na busca de espaços e oportunidades para mostrar seus trabalhos. uma busca natural dos que trazem dentro de si mensagens que não podem calar. Dia 27 de outubro de 1981. Com articulação do poeta Guimarães Rocha, então terceiro sargento da Polícia Militar, servindo à comunidade local, era realizada a Primeira Noite de Poesia de Naviraí, no auditório do Fórum às 19h, com apoio do prefeito Ronald de Almeida Cançado por meio da secretaria municipal de Educação e Cultura.

Naquela noite pioneira, em que Guimarães Rocha convidava seus amigos poetas Altair Batista de Oliveira e lsaac David Espinosa, de Dourados, e Alex Fraga, de Campo Grande, esses entusiastas declamaram seus poemas, deram entrevistas ao Jornal de Naviraí e Rádio Cultura; naquela data fundaram a Associação de Escritores Novos (AEN). Junto com o Movimento dos Escritores Independentes (MEl) que florescia espontânea e informalmente no Estado, preferindo os encontros caseiros e em bares, em vários municípios e principalmente na Capital, seus integrantes iriam compor muitos outros momentos poéticos literários.

Era o dia 19 de novembro de 1981, 19h00. No Centro Universitário de Dourados (CEUD) a Associação dos Escritores Novos (AEN) promovia a Noite de Poesia em Dourados. Participaram os poetas Altair Batista de Oliveira, Guimarães Rocha, Isaac David Espinosa,. Vander Verão, Emmanuel Marinho, Altair da Costa Dantas, Rubens Ojeda e o grupo Tealro Universitário de Dourados (TUD) – com Leninha, Eudes Ferreira e outros participantes. Os jornais “O Progresso” e “Jornal da Praça” divulgaram o evento. Dali os poetas saíram a declamar pelos bares. Naquele momento muito forte, a alegria era o ponto de partida, junto com a vontade de cada qual apresentar o seu trabalho, e isso apontou a noite da poesia para outros municípios.

Ponta Porã, dois de março de 1983, escola Joaquim Murtinho, 19h00. O evento poético agora reunia Altair Batista de Oliveira, Alex Fraga, lsaac David Espinosa, Guimarães Rocha, Rubens Ojeda, Emmanuel Marinho, Leninha, todos acolhidos e brindados pelo poeta escritor Elpídio Reis, filho da terra. E a Noite da Poesia haveria de raiar na Capital, logo mais, naquele ano.

FUNDAÇÃO DA UBE/MS

Em 1985, Guimarães Rocha se remiu com Paulo Renato Coelho Neto e André Martins Barbosa, que, após tomarem conhecimento da grandiosidade da proposta, resolveram somar esforços para criar a UBE/MS. Assinaram juntamente com Guimarães Rocha e assim fizeram uma carta convidando os escritores para a primeira reunião de fundação da entidade. Foi então que a 29 de junho de 1985, após discussão foi aprovada a criação da UBE/MS, tendo como princípio defender os interesses dos escritores e poetas sul-mato-grossenses, que anseiam por ver uma literatura forte e bem representada.

Em seguida. foi eleita a primeira Diretoria, provisória, com a seguinte formação: Presidente – Antônio Lopes Lins; Primeiro Vice-Presidente – Luis Alexandre de Oliveira; Segundo VicePresidente – Júlio Alfredo Guimarães; Secretário-Geral – Guimarães Rocha; Primeiro-Secretário – Orlando Silvestre Filho; Segundo-Secretário – André Martins Barbosa; Tesoureiro-Geral – Luis Antônio Torraca; Primeiro-Tesoureiro – Paulo Renato Coelho Neto; e Segundo-Tesoureiro – Tatyano Miguel Nascimento.

Não fora fácil para o jovem poeta Guimarães Rocha, então acadêmico de Letras (da antiga FUCMT, atual UCDB) a tarefa de conseguir os apoios necessários à criação da UBE/MS. Após intensa busca junto às pessoas integradas ao mundo literário, muitos dos companheiros, mesmo estando aptos a aderirem à ideia, não ajudaram. Trazendo sempre um abaixo assinado debaixo do braço, pedindo para criar a entidade, Guimarães Rocha viera de participar, em São Paulo, do Congresso Brasileiro de Escritores, que acontecera de 17 a 21 de abril de 1985, no Teatro Sérgio Cardoso. Foi o maior encontro de escritores realizado no Brasil, tão importante que só teve outro da mesma expressão: o de 1945, de 22 a 27 de janeiro, ao fim da Era Vargas.

AS LUTAS PELA CONSOLIDAÇÃO DA ENTIDADE

Voltando no tempo, temos que o Movimento dos Escritores Independentes (MEl), mesmo grandemente fortalecido depois da primeira Noite da Poesia (Campo Grande, 21/5/1983), os seus participantes (por exemplo, o poeta jornalista Gutemberg Honorato de Moura) em maioria não desejavam uma entidade formal do ponto de vista de um estatuto. Os poetas se reuniam em bares, declamavam e, para muitos, isso era tudo.

Em 1984 o MEl decidiu levar a poesia de Mato Grosso do Sul a São Paulo, especialmente para a comunidade da Vila Madalena, em que pudemos contar com o apoio e acolhimento do ator e poeta Marley Cunha Filho (de Costa Rica/MS) e outros componentes do seu grupo. Naquele ano fizemos ali, a 27 de agosto, a Noite da Poesia de Mato Grosso do Sul, na Livraria Scorteci, Bairro Pinheiros, São Paulo/SP, do poeta João Scorteci, que publicava grande número de livros de novos autores. Existia um clima de esperança de que “algum iluminado ‘descobrisse’ nossos poetas”.

Essa caravana era integrada por: Altair Batista de Oliveira, Hélio Ferreira, Denise Dal Farra, Lidia Duailibi, Antônio Papi Neto, Rachid Salomão, Antônio Dias Ropelli, Ângela Maria Perez, Marluci Brasil de Castro, Guimarães Rocha, Orlando Silvestre Filho, Gutemberg Honorato de Moura, Alex Fraga, Benedito C. G. Lima, Emmanuel Marinho, lsaac David Espinosa, Liliane Massad, Marcos Gouveia, Ivo Marcos, Luis Antônio Torraca, Alaíde Corrêa de Oliveira, Tatyano Miguel Nascimento, Artêmio Sanches, e o músico Toninho Porto. Registre-se: desse trabalho resultou uma coletânea de poesias dos nossos poetas do MEl, uma confecção de grossos livros com espiral, xerocópias. Destaque aí para o trabalho de organização quase artesanal dos poetas Gutemberg Honorato de Moura e Orlando Silvestre Filho.

A esperada Noite da Poesia não aconteceu em 1984, em Campo Grande, claramente por falta de sintonia e comando único. O movimento se desfazia aos poucos. Em março de 1985, Guimarães Rocha tomou conhecimento de que haveria um segundo Congresso Brasileiro de Escritores, em São Paulo. O poeta tenta reorganizar o grupo para participação, mas não encontra ânimo dos companheiros do MEl. Busca recursos na Fundação de Cultura, presidente – José Octávio Guizzo, que não propiciou nenhum apoio e recomendou procurássemos outros meios. Guimarães Rocha não desiste e, procurando o comandante geral da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, coronel Jofeli Paes de Carvalho, obtém passagem e estadia nas dependências da PM do Estado de São Paulo. Assim foi que o poeta pôde participar do grande encontro de escritores.

ENCONTROS DE ESCRITORES EM MS

Dada a posse da diretoria provisória da UBE.MS (29/6/1 98.5), o presidente, professor Antônio Lopes üns, reconheceu de público o empenho e coragem do grupo empreendedor para a criação da entidade: “É preciso respeitar a força do jovem poeta Guimarães Rocha, que com a ajuda do André e do Paulo Renato conseguiu fazer o que muitos não tiveram coragem de enfrentar”. Coube a essa Diretoria organizar o primeiro Encontro de Escritores do Estado.

Guimarães Rocha trazia consigo ementas, novas propostas e uma carta de intenção dos escritores brasileiros no sentido de renovação dos modos de fazer política cultural, tudo isso haurido do Congresso Brasileiro de Escritores (São Paulo/SP, 17-21/4/1985). O poeta junto ao Governo Wilson Martins, com excelente apoio do chefe do Gabinete Militar, coronel PM Carlos Moreira Soares obteve autorizações de pagamento de todas as despesas do Primeiro Encontro de Escritores de Mato Grosso do Sul, realizado no período de 9 a 11 de maio de 1986, no Paço Municipal de Campo Grande.

A intensa participação nesse primeiro Encontro consagrou a UBE/MS. O evento foi marcado pela palestra do ilustre escritor Ricardo Ramos (filho do festejado Graciliano Ramos) então presidente da UBE/SP. Na ocasião foi eleita a diretoria para 1986-1987. Assim: Presidente – Júlio Alfredo Guimarães, Vice-Presidente – Orlando Silvestre Filho, Segundo Vice-Presidente – Izulina Gomes Xavier; Secretário-Geral – Guimarães Rocha, Primeiro-Secretário – Liliane Massad, Segundo Secretário – Argus Cirino, Tesoureiro Geral – Antônio Papi Neto, Primeiro-Tesoureiro – Reginaldo Alves de Araújo e Segundo-Tesoureiro – Alaíde Corre a de Oliveira.

O Segundo Encontro de Escritores de Mato Grosso do Sul foi realizado em Corumbá, 1987, setembro, dias 18, 19 e 20 no Corumbaense Futebol Clube. Essa promoção da UBE/MS teve apoio significativo do governador Marcelo Miranda Soares por meio da Secretaria de Cultura – então administrada por Humberto de Miranda Espíndola, e do prefeito municipal Hugo Costa por meio da secretaria municipal de Educação e Cultura – então administrada pela dinâmica professora Hélia da Costa Reis. Nomeado pela Diretoria da UBE/MS, o poeta Guimarães Rocha foi o coordenador executivo deste que constituiu o último grande encontro de que se tem registro na história literária de Mato Grosso do Sul.

Resumindo sobre a importância daquele encontro em Corumbá para a cultura em Mato Grosso do Sul, em meio à riquíssima programação, registramos a palestra do poeta Thiago de Mello, que falou sobre “O Escritor e a Sociedade Latino-Americana” e lançou o seu livro “Amazônia Pátria da Água”; apresentação do músico e poeta Rômulo do Amaral Filho; lançamento do livro “Flor de Camalote”, de Ângela Maria Perez (UBE/MS); presença da poetisa Cristina Cabral, representando a UBE/CE; exposições diversas.

GUIMARÃES ROCHA NA PRESIDÊNCIA DA UBE-MS

Eleger a nova diretoria da UBE/MS (biênio 1988-1989) era pauta da programação do Encontro em Corumbá, para as 14h00 de 20/9/1987. Mas o então presidente da entidade, Júlio Alfredo Guimarães suspendeu a chamada, alegando que “não tinha clima” para o feito eleitoral. Na verdade, ele agia para evitar a disputa, pois não queria que seu candidato perdesse para Guimarães Rocha, que encabeçava uma chapa para concorrer naquela eleição.

A esse respeito – o impedimento das eleições na UBE/MS, Júlio Guimarães deixou Corumbá sem dar explicação à imprensa, que cobrava informações; em seguida, ele não mais compareceu à sede da entidade. Diante disso, o presidente do Conselho, professor Antonio Lopes Lins, convocou eleição de acordo com o Estatuto. Não se apresentando, no prazo estipulado, outra chapa que concorresse, a liderada por Guimarães Rocha – foi aclamada vencedora.

A nova diretoria (1988-1989) então assumiu pelas mãos do poeta Lopes Lins. Na posse, o anfiteatro do Paço Municipal estava repleto, contando, a mesa solene, com o doutor André Puccinelli, à época deputado estadual (hoje governador de MS), ladeado pelo novo presidente da UBE/MS, Guimarães Rocha e pelo presidente da Fundação de Cultura de MS, o cineasta Cândido Alberto da Fonseca.

A indispensável presença da base se fez maciça naquele momento vitorioso: estudantes, poetas, diretores de escolas comemoraram e expressaram reconhecimento ao nosso trabalho que, por justa consideração, era descrito como disseminador dos ideais de uma nova reaproximação da sociedade com os escritores e poetas do Estado.

Efetivamente, Guimarães Rocha criou o projeto “O Escritor na Escola” e desenvolveu uma política de visitação a vários municípios. Depois da UBE/MS lançar esse projeto, o saudoso doutor Elpídio Reis disse, sem cerimônia, que a Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. a qual presidia, lançaria a Academia nas Escolas e assim o fez. “O Escritor na Escola” foi lançado em todas as escolas de Dourados, Fátima do Sul, Vicentina, Culturama, Navirai, Amambai. PontaPorã, Eldorado e Corumbá.

O FUTURO

Pensar no significado da finalidade nobre que motiva a União Brasileira de Escritores (UBE/MS) só nos faz refletir, com esperança e fé, que de fato tal entidade é “cultural sem fins econômicos e objetiva estimular as atividades literárias e artísticas, lutar pelo livre exercício da atividade de escritor, e defender a liberdade de pensamento nos termos constitucionais – uma unidade autônoma em relação às demais UBEs nos Estados”.

Um futuro promissor é o que se pode esperar, já que bons companheiros. à frente da entidade, dedicam-se valorosamente ao deserwolvimento cultural do Estado, seja por meio de tudo que envolve a Noite Nacional da Poesia, palestras e oficinas em escolas, publicações de coletâneas, acampamentos, seja nos contatos e encontros fraternos em que ressaltam sensibilidade e criatividade.

Eu, Guimarães Rocha, me permito assim sonhar para a UBE/MS. desde que tive a oportunidade de haurir, da originária União Brasileira de Escritores (fundada nacionalmente em São Paulo a 17 de janeiro de 1958), os aprendizados éticos que envolvem “Defesa da liberdade de expressão”, “Defesa dos direitos autorais e demais direitos dos escritores”, “Difusão da cultura e a democratização do acesso à informação”. Ademais, se nos deixarmos levar p elo que todo homem de bem apregoa, de que nós devemos trabalhar pela integração das pessoas e instituições, com o princípio de igualdade para todos e absoluto respeito às diferenças, podemos prosseguir suspirando pelo todo harmônico de justiça e amor.

Guimarães Rocha é poeta escritor, um dos fundadores da UBE/MS, membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.