UBE-MS divulga os poemas vencedores do 33º Concurso Noite da Poesia 2021.

POEMAS VENCEDORES – BRASIL

 

1º LUGAR:

IMÓVEL

Autor: Carlos Eduardo Canhameiro (São Paulo-SP)

 

porque sumiram

os meninos

de Belford

Roxo

 

e o (nosso) país

seguiu

[mais uma vez

impávido colosso

 

este poema não

consegue ir

adiante

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2º LUGAR:

 

SOBRE AFETO

Autora: Maria Samara Fernandes da Silva

(Baturité – CE)

 

 

Nas cores

Nos laços e deslaços,

Me desamarrei feito o sangue que nos escorre.

Meus olhos se alinharam feito sol e lua

Em uma oscilação de encruzilhadas de afeto.

 

Discorre em mim a fragilidade de beleza rara

E agora não corre, fica no colo que te socorre,

[desa’gua

deixa que teus elos se enlaçem

desamarra os fios que tentam te alisar.

[ Se afasta

Deixe que o tempo te abrace

Rechace os que te atormentam

[achegue-se

Veja quais colos te acolhe

[Transforme em lar.

Perceba que nem todos você pode chamar de casa.

Sinta que o tempo já vem distante, apressado em passar

[Então passe

Que na pressa do tempo, te encontre

Retorne

E assim, em abraços apertados

Se perca, mergulhe, se afogue.

esqueça que sabe nadar.

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3º LUGAR:

ESTRIBILHOS

Autor: Weslley Moreia de Almeida (Feira de Santana – BA)

Desfiz um poema

eliminando versos

acrescentando vácuos

para a percepção nova do silêncio oculto

na beira do rio das palavras.

 

Cortei uma rima

como quem despe estribilhos

como quem quebra uma corda

enquadra uma roda

desafina um instrumento:

e toca

dissonâncias

num insólito ritmo

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4º Lugar:

O LUTADOR

Autor: Djavam Damasceno da Frota (Fortaleza – CE)

atrevo um prego

à pele da palavra

: larva

que leve estala,

estreita estrela que

linha a linha

ainda

me navalha

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5 º LUGAR: a autora não autoriza a divulgação

 

6º LUGAR:

(O autor enviou e-mail desautorizando a publicação)

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7º LUGAR

ALVORADA

 

Natã Rogerio Da Silva Canevazzi (Bebedouro – SP)

 

 

 

Vês velejar pelo fino átrio que se esconde

A prova, as magoas que de todos os rios fluem

Dos vagalumes que a noite não respondem

Pelas fumaças que no ar já não poluem?

 

Que modéstia emblemática reza feita

Que do rosto fino escorrem rios de gritos

Como se fossem mortas plantações de trigo

Abandonadas a um vil destino réu, sem colheita.

 

E do sol que sem piedade faz queimar a nuca,

Será ainda dele toda a culpa do calar e amordaçar

Da pele sem ternura, agora escura e castigada?

 

O tempo há de mostrar aos homens na alvorada

Quando corpos imóveis se estenderem nas calçadas

e um sentimento de culpa os tomarem como nunca.

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8º LUGAR:

                                                    ECO DOS ABISSAIS

Autor: Venicio Conceição Souza Garcia (Parintins – AM)

Ampulheta d’água

Tempo líquido

Descido dos Andes

Vendaval das horas

Círculo rede moinho

Contemplativo ser

Deusa mística  degradê  …

Ampulheta d’fogo

Sol e larvas

Alter ego

Curvas do corpo

Passado  amuleto

Sentimento amor lado

No peito da pedra verde

Do meu ser transfigurado…

Ampulheta d’vento

Transparência dos sinais

Redoma de sentimento

Eco dos abissais

Abismo letal

Violação do mundo

Pudico e imundo

Pandora do desejo

Convergência do que vejo…

Ampulheta d’terra

Filhos nascidos do barro

Do húmus esculpido no mármore

Alma do dia

Corpo da noite

Reverso  e mundano

Composição perfeita

Arte dos ancestrais

Pintada no corpo

Criação da vida

Ampulheta  elementais….

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9º LUGAR:

ANGU DE FOME 

Autor: Nicoly Valaska dos Santos (São Paulo-SP)

­­­­Farinha boa é a que forra o bico

o siso cola em saliva feito gordura

dura, rasgando desce;

Farinha boa é a que faz músculo,

goma de repuxo estrepe,

baixa a fuça e engole em seco, sempre.

 

Fubá, feijão, água e sal.

Não tem gás arma brasa no quintal;

Faz sopa do perigo que é o menino

correr chamuscado de pança vazia,

domar o fígado com angu capataz.

 

Cumbuca de microplástico

charque de sódio entope

ocre a veia coágulo;

Caldo amarelo de triângulo

carece de muita farinha boa…

Que diabos há na minha sopa?

 

A mão em riste triste agradece

dieta paleolítica, alta estética promete

Fuça cadavérica eiva e saliva

(dizem que é bom pra cabelo em queda

e ainda disfarça o mau cheiro).

Necropolítica é o açougue em fila:

farinha pouca, o do boi primeiro.

 

Em boca ressequida não entra mosca,

nem fruta, leite, óleo, hortaliça ou arroz.

Aprenda a cozer cartilagem em louça:

– Sufoque a rouquidão feroz;

– Disfarce a pouca caloria, ria;

– Raleie o angu peneirado;

Está pronto o algoz.

 

Compreenda, Senhora:

não há receita nessa vida

que possa imitar o manjar

com gosto de matar

a carência de carne

com nervo do osso e do bico.

 

A carne mais barata do mercado

é a minha!

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10º LUGAR

APOCALIPSE SEGUNDO DIÓGENES

Autor: Vítor de Lerbo Carvalho (São Caetano do Sul-SP)

 

enquanto me livro deste soneto
torço para que encontres tua luz
ou alguém para carregar tua cruz
ou então um punhado de cianureto

anjos já não cantam em teu coreto
teu ouro é seco e teu olhar não reluz
para tudo que a paixão não traduz
vêm os versos do primeiro terceto

falhas abrem as pernas como mães
cicatrizes jorram novo sangue híbrido
nas sombras coleiras devoram cães

que o armagedom não seja interrompido
pois em teus devaneios ermitães
o paraíso será esculpido

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POEMAS VENCEDORES MATO GROSSO DO SUL

1º LUGAR

AMARELINHA

Autor: Reginaldo Costa de Albuquerque (Campo Grande-MS)

 

Sobe o telão que o tempo não mesquinha…

Num recanto de praça, ao sol mais brando,

um mosaico infantil se equilibrando

na leda animação da amarelinha…

 

O céu bem perto… e a chave, uma pedrinha…

Quadro a quadro e eis a criançada, quando

não se pensava em truque e ardis, brincando

entre erros, falhas ou pisões na linha!…

 

A mão do acaso rebobina a fita…

E ali, bandeira em punho e voz em grita,

a alma de uma pátria, êxule, ferida…

 

Desenhos de hoje, amar/é/linha vaga…

Ora um céu de poder… cega e embriaga…

Ora o céu do ideal… redoura a vida.

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2º LUGAR

A ESPERANÇA QUE RELUZ NO SOM DO SOL

 

Autora: Adrianna Alberti (Campo Grande-MS

 

Seis e vinte sinto meus ouvidos acordarem

ao som agudo da sinfonia das araras canindé.

 

Os dias ruins reluzem com o sol forte

através do céu de tons azuis tão brilhantes.

Meus pés pisam em ruas floridas de ipês coloridos,

esses belíssimos tapetes para olhos sem tempo.

 

Escorre como o inverno, horas estranguladas

entre os grossos dedos de uma ansiedade barulhenta.

Afogo a arritmia em três doses generosas de café,

novamente, abro mão do sono insuficiente

em sua espuma dourada.

 

Então,

 

deixo a mente chover nas cores vívidas do seu arco-íris,

minhas quimeras dançando com a miríade

incompreensível de suas tantas nuances.

Repouso de olhos abertos, imersa em suas formas abstratas,

reflexos de miragens de sonhos lúcidos.

Respiro o oxigênio em seus sons suaves.

 

Absorta entre lilases e roxos,

reverbero o sorriso esperançoso dos exaustos.

 

E tento, de novo.

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3º LUGAR

CORPO MATOGROSSO

Autor: Fábio Gondim (Campo Grande)

Alagados meus olhos,

um novo amor

nascente prosa.

 

Passeia em meu cabelo

a música do vento março.

Na pele, colorau e mate:

meu corpo orvalho imita

o viço urgente dos camalotes.

 

Cerrados meus olhos,

um velho amor

poente segredo.

 

Rompem em meu ventre

óvulos pequis.

Outubro menstrua blasé:

meu corpo febril imita

a nudez agreste dos pés de ipê.

 

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4º LUGAR:

JARDINS ESTÁTICOS

Autora: Diana Pilatti Onofre (Campo Grande)

na simetria das pedras

o silêncio faz crescer musgo

a palavra úmida na boca da rã

cala histórias noturnas

 

e eu sonho girassóis

 

sobre a pálpebra da noite

grilos trincam estrelas

a palavra-estilhaço escorre calada

de algum sonho violado

 

e eu transcrevo minhas imprecisões

 

uma ave desperta auroras

a palavra neblina paira sobre a relva

no ponto de ônibus um hiato

uma mulher a mastigar versos

 

e eu admiro o cílios do dia

 

o sol arde uma rima

há outra palavra

na aba do crisântemo

a encarar inerte o meio-dia

 

eu guardo pétalas e saudade entres os lábios

onde se faz poesia

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5º LUGAR:

 

HONRA E GLÓRIA, MARIAS!

Autora: Eva Vilma Souza Barbosa (Campo Grande – MS)

 

Benditas sois vós, Marias,

com suas inspirações para vivermos

à imagem e semelhança de suas forças.

 

Benditas sois vós,

com seus corações pulsantes

cansados de batalhas,

e nunca abnegados da luta.

 

Ditosas sois vós, Marias,

corpos incandescentes,

corações, olhos, bocas, vulvas,

vasos sanguíneos, glande,

tudo latente.

 

Ditosas vós,

que dais de comer aos sonhos

e de beber às buscas

com o néctar da fartura.

 

Benditas e sagradas, vós, Marias,

com suas incontáveis ressurreições

no terceiro instante subsequente

às tantas mortes germinadas do patriarcado.

 

Benditas Marias!

de todas as cores

de todos os corpos.

 

Meu coração se curva

às vossas forças.

alma minha faz honrarias

aos vossos ensinamentos,

honra e glória, Marias!

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6º LUGAR

A PESTE E O PAÍS QUE SE PERDEU

Autor: Volmir Cardoso Pereira (Campo Grande)

 

Conta-se que do Oriente veio a Peste

Viajando em narinas e voos celestes,

Flagelo das urbes, foices aladas

Sim, a Peste, aerossóis e fumaça.

 

Conta-se que homens e mulheres perderam os deuses e as ilusões

Quando viram nos caminhões os corpos empilhados.

Rios e rastros de sangue escorrendo:

No stop dos semáforos das ermas vias.

Nas bocas rubras de manequins abandonados nas vitrines.

Nas taças de vinho sujas na pia.

 

Conta-se que o povo, meio morto, meio vivo

Acumulava lutos, uivos, raivas, insônias, carências, azias,

Decepções no delivery, teorias conspiratórias, demências, dívidas,

Portas fechadas, ausências, likes, pornografias.

 

Conta-se que Giovanni Boccaccio e Albert Camus

Quedavam-se ali, nos átrios do devir

Zombando dos homens que tentavam lucrar com a Peste:

Nos laboratórios de vacinas, púlpitos, milícias,

Licitações, mise en scène de arlequins fascistas,

Escritórios de Wall Street, negócios da China, prostíbulos em Hanói,

Cloroquinas da Índia, algoritmos, pirâmides e bitcoin

Enquanto urubus, ah os milenares urubus,

Planavam num círculo cada vez mais espesso entre o cinza e o azul

Bailando rasantes sobre o pasto-cadáver de rotas cidades.

 

It’s a hard rain’s gonna fall.

 

Conta-se que, ainda assim, cantaram a esperança debaixo do sol.

E que mulheres, crianças, negros, guaranis, sem-terra, sem-teto,

Imigrantes, travestis e todos os assassinados no deserto

Guardaram em cantis sua fúria acumulada

Em cada soco, facada, chute, tiro, forca, cruz levantada,

Para decerto choverem seus corpos delinquidos e líquidos

Sobre fímbrias e fronteiras esquecidas

Riscando no chão um mapa de água salgada

De um novo país, placenta de lágrimas,

Esculpindo com estecas de ossos torturados

Animais marinhos, lírios selvagens, falésias, formatos alegres

Semeando danças, chuvas, banhos, beijos e festas

Para depois, muito depois da Peste.

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7º LUGAR

ALBOR

Autor: Fábio Coutinho de Andrade (Campo Grande)

 

No albor da vida surge o amor, em esplendor

Seguramo-lo: tornamo-lo parte de nosso ser

O dia vem em canto mavioso, com seu fulgor

E o instante queremos em nossas mãos reter

 

Aurora! Anunciação da estação ainda por vir!

Primavera! Flores multicores o chão a cobrir

As áleas de amores-perfeitos parecem enfeitar

A passarela por onde irás, até mim, chegar

 

No albor da vida surge o amor, em esplendor

Vem de longe, trazendo consigo novo olor

Prenunciando sutilmente a nova estação:

O perfume das flores-por-vir em gestação

 

Que medram e invadem com doce aroma,

Aos atentos amantes assim se oferecendo,

Durando apenas um instante, o momento

Tal qual beijo fugaz, na memória eterno

 

Ocaso! Secas folhas no chão a lembrar

A alameda que outrora nos sorriu!

Outono que a sequidão n´alma traz

Que o inverno espera para descansar em paz!

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8º LUGAR:

LEIAM

Autor: Erick Vinicius Mathias Leite (Campo Grande)

 

Não vês, leão? O sol no girar dos signos

Orgulho dilata como alta brasa

A juba abaixa frente espelho d’água?

Afoga-se em si como mil narcisos

 

Que vês, leão? Trom soa por Judá

O Xácti divino de Nara-Simha

Shakya, Buda Gautama ruge o Dharma

Genro de Maomé, fera de Alá

 

Não vês, leão, sua luz te cegar?

Um animal de existência execrável
Corpo que não passa de um avatar

 

Mais sentidos inhabitam, notável!
Ainda mesmo que tentes enterrar

A carniça já cheira insuportável.

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9º LUGAR

A SAGA DOS GUATÓS

Autora: Gleycielli de Souza Nonato (Coxim – MS)

Gua-dá-can viam as cheias.

Alagando terras brejeiras;

Embarcações de cambará com zinga de caneleira

Levavam famílias inteiras.

 

Depois veio a guerra.

Família contra família.

Trocamos os gritos felizes de crianças nos alagados,

Por gemidos de soldados.

 

Então, a batalha da carne.

Sarampo, catapora, febre amarela.

Mataram nosso povo

Pouco a pouco,

Despejado em banguelas.

 

Logo após os abatedouros de jacarés.

Fomos presos e enjaulado

Como nem se faz com animais.

A nossa cultura foi confundida

Com a falta que a cultura faz.

 

Por fim, os fazendeiros,

Nos expulsaram de nossas terras

Soltaram gados, gygyago rô;

Nos acuaram em uma ilha,

Nos espalharam em periferias.

 

Os mais velhos adoeceram de desesperança;

E os mais novos se tornaram peões.

Trocando a chicha

Pelo veneno da cana.

 

Colocaram cerca onde éramos livres;

Nos deram nome, religião e poucos abrigos.

Afogaram a nossa existência,

E não nos deram motivos do etnocídio.

 

E das cinzas das fogueira nossas almas vão insistir:

Gôcô aréro tyto vogum o ge com.

– Nós somos tão fortes, mas tão fortes,

Que nem a força nos fará desistir.

 

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10º LUGAR

(DES) HUMANIDADES

Autora: Luci Dalva Maria de Souza (Campo Grande)

 

No arcabouço da memória

Sou fortaleza,

No suor acorrentado

Fiz a riqueza de suas terras.

Suas??

Ironicamente  fundamentado nas Leis…

Lei de Terras… Suas terras? (ironia)

Sonho da cor livre!!!

SIM

Quase 500 anos

E ainda amargam os meus dias

A história que se repete

No apelido…

No deboche…

Na sexualização,

Objetificação do corpo,

Na ação velada e mesmo desvelada,

Que oprime,

Reprime,

Que Mata.

Mata de muitas formas e por muitos motivos.

Qualquer motivo!!!

Porque refugiei-me em Quilombo

Porque confundiu-me

Porque corri,

Porque fiquei,

Porque desisti

Porque dentro de uma Universidade entrei

Porque, resisti,

Tantos são os porquês,

Mas eu digo BASTA!!!

Sou milhões de outros eus,

Sou Nação que grita

Sou elo forte da corrente

SOU LINDA

SOU PRETA

SOU A GARRA, AGARRADA AOS FIOS DA MEMÓRIA

SOU AFRICA

SOU BRASIL

SOU HISTÓRIA

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Revista Piúna 2ª edição

Critérios para a publicação de textos na Revista Digital Piúna (UBE/MS)

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9. A Revista Piúna se reserva o direito de recusar a publicar qualquer matéria avaliada como inapropriada ou que estiver em desacordo com os itens; e,

10. O recebimento do material para publicação, conforme o item 2, será até o dia 10 do bimestre anterior. A segunda edição da Piúna será nos meses de novembro e dezembro de 2020. Então, a data limite para recebimento será o dia 10 de outubro de 2020. Para a publicação na 3ª edição (janeiro/fevereiro de 2021), o prazo limite será o dia 10 de dezembro de 2020. E, assim, sucessivamente.

Conselho Editorial | Ler a versão digital

UBE/MS lança a Revista Piúna

Por que Piúna?
Por Sylvia Cesco

Foi bem assim, desse jeitinho: aprovada por unanimidade a criação de uma Revista digital da UBE/MS, previamente proposta pela Diretoria recém-empossada, era preciso dar-lhe um título. Algo sugestivo, singelo, sem rebuscamento, e que estivesse relacionado à terra sul-mato-grossense.

Solicitamos aos associados algumas sugestões. No final, restaram três nomes: Seriema, Monjolo e Piúna, todos eles cumprindo os critérios anteriormente citados. Nestes céleres tempos que estamos vivendo, os signos linguísticos vêm a eles se adequando, ficando cada vez mais reducionistas, metonomínicos e libertários.

Assim, de modo natural, dentre os três foi escolhido o nome Piúna, sugestão da poeta Raquel Medina, nossa associada. Disse-nos ela que a palavra lhe foi lembrada pelo pai, humilde trabalhador braçal em terras pantaneiras, que passou cerca de 40 anos construindo cercas, pontes e porteiras, e seus descansos eram sob a sombra dessas árvores, também conhecidas como piúvas ou ipês-roxos, que cobriam o chão de flores. Estas árvores também florescem nas regiões do cerrado.

O Centro Nacional de Conservação da Flora nos ensinam ainda que: “Seus frutos podem ser consumidos in natura ou sob a forma de sucos e geleias. São madeiras de lei e não devem faltar em projetos de revejetação permanente.” E o mais importante: Essa árvore não corre risco de extinção. A palavra Piúna, pois, carrega em si uma bela metalinguagem para indicar o ideal democrático que embasa esta Revista da UBE, toda diagramada pelo nosso atual Vice-presidente Rogério Fernandes Lemes.

Com a palavra, a autora da sugestão do nome, poeta sul-mato-grossense, Raquel Medina:

Piúna
(Raquel Medina)

piúna! piúna!
o lilás da sua pluma
arvoreceu no meu quintal
memórias de ninhos e flores tatuados
no chão da paisagem do meu velho
o meu velho pantanal
ancião deste cerrado.

além do tempo cidade,
lá no coração do mato,
piúnas estendem além-cores
casca e flores
curam-dores
do corpo da gente
que aprendeu árvore ser
e florescer nos pantanais
lonjura de qualquer cidade.

toda gente deveria
sete vezes ao dia
poder árvore ser
sublimar cimentos
isso fazem os passarinhos
por isso voam nos aléns
do azul de pedras
que a cidade inventa
nas árvores sem ninhos.

o velho pantaneiro,
de suor e lembranças a escorrer pelo rosto
à flor da pele – pontes, porteiras e outros caminhos
vergões, verões e primaveras
à flor da árvore
arvoreceu ninhos na voz
e passarinhos nas esperas
esticando lunas
à sombra de Piúnas.

árvore ser
é olhar de passarinho
espera de luas além do céu que a gente respira
além-cidade e becos
sentir a terra à flor da árvore
ver à flor da pele
desde o vento do cerrado,
aos corixos do pantanal,
nossa extensão
e nosso ancião,

a cidade,
feitura de chão
agasalhada de concreto e asfalto
tem necessidade de florir pela terra,
à flor da pele pluma
útero de chão
na insistência das flores
respira
quando a raiz explode o cimento
a cidade ganha poema
árvore e palavra
Piúna
alivia concretos no coração.