Leia os finalistas da categoria nacional da 34ª Noite da Poesia!

  • PRIMEIRO LUGAR

SINA ESTRADEIRA

Valéria de Cássia Pisauro Lima

 

Entre grandes campos, cerrados

Vestem verdejantes serras

Deslizam prosa e segredo  

Encanto de céu, água e terra.

 

Descem em mim poentes

Pássaro tenor dobra o pio

Deve ter uma morena cantando

Na margem de um beira-rio.

 

Na linha avermelhada do horizonte 

Brilha o desejo de existir urgente 

Caminho apertado, destino arado,

Afina o sentir em tudo o que se sente.

 

Mas, meu corpo correnteza 

Carrega a poesia da estrada

O mesmo rio não volta atrás

Não secam folhas molhadas.

 

Saudade acompanha a sina 

Quem parte busca o sonhar

Quanto mais se distancia

Aumenta o desejo de voltar.

 

Crio à risca meus atalhos,

Sigo firme sem me despedir,

Se um dia quiser que eu volte, 

Permita-me, então, partir.

  • SEGUNDO LUGAR 

QUEBRANTO

MAURÍCIO LIMEIRA DOS SANTOS

 

Eu não posso ler poesia

porque preciso lavar a roupa.

Não é que meus olhos estejam gastos,

não eles, é o peito

que ficou embrutecido

e não se deixa comover.

O coração desaprende.

 

Eu não sei me abstrair para o lirismo

porque o menino está chorando.

Existe terra e pedra na cozinha,

lama e noite na janela aberta,

e não existe mais janela nem cozinha,

só a vala por onde a casa escorreu.

Eu peço um agasalho,

visto um agasalho mas não sei como será

se eu de repente adoecer.

 

Eu não consigo me deixar levar

por palavra doce e rima,

porque acima do sonho que me embalava

agora falta um teto,

e tem esse quebranto que não cessa,

e chove, e estamos sujos.

 

Eu não consigo me ver na folha

desse livro, eu peço licença.

Eu sinto vergonha

quando olhos como esses me vasculham

e se apiedam.

Eu sei que estou cheirando mal.

Eu peço desculpa.

Vou ver o menino.

O menino dormiu.

  • TERCEIRO LUGAR 

Lar

 Léo Ottesen

 

Se eu pudesse escolher um lugar pra morar…

Deitado na cama com o pai, vendo tevê

em silêncio

e dizendo tudo.

 

Na cama do lado da cama da mãe, vendo tevê,

discutindo os filmes

e discordando e concordando um com o outro

em paz.

 

Na mesa da cozinha ensinando meu filho matemática,

mesmo sem saber.

Ou nas aulas de inglês que ele desistiu de ter.

 

Nos churrascos da irmã, em que eu só bebo e nunca como.

No jogo de cartas com a sobrinha, que só vence,

e eu nunca entendo como.

 

Se eu pudesse escolher um lugar pra morar,

onde eu pudesse ter lar e aguentar o que vem…

Não seria onde.

Seria quem.

  • QUARTO LUGAR 

Guerra do Paraguay

Carlos Brunno Silva Barbosa

 

Eis o soldado semeando a paz,

queimando homens, terras, animais,

e ele crê na bondade dos seus atos,

é um homem bom, cidadão pacato.

“Matei por nós!”, diz pra pátria distante.

“Matei por nós…”, repete hesitante,

pois o vento vestido de mortalha

nada espalha além do odor da batalha.

A morte perfuma a farda ferida

do assassino herói cheio de vida.

 

Perto dele, rasteja uma ave insana:

de asa quebrada, um pájaro campana,

contra o bruto brasileiro, ele canta,

mas seu canto feroz mais nada espanta.

Dá-lhe o inimigo um olhar de soslaio

– pena ou pesar pelo anão paraguaio?

 

Rufa o tambor o bárbaro exultante,

traz, fora de si, o brado retumbante,

mas, por dentro, o gigante sente fome,

a mesma míngua que a tantos consome.

Cresce o Império, mas sedimenta o pobre:

a glória faminta não lhe faz nobre.

Na penúria, entre presos e presas,

vem realidade, cai realeza.

Já nas palmeiras longínquas de cá,

gorjeia, abandonado, o sabiá:

“Ah, Brasil voraz, pai de tantos ais,

quanta avidez por guerra, quantos mais?

Tanta dor, trevas, tantos Paraguais!”

Mesmo surdo e longe, o caboclo escuta.

 

Agora o soldado volta da luta

para outra luta, desta vez sem paz…

  • QUINTO LUGAR 

 

Movimento

Zilca Tosta Coutinho

mente estilhaçada

suspensa 

em memórias

ultrapassadas

 

o que veio

depois

que a dor

foi embora?  

 

coisas, pessoas, lugares

 

desordem de pensamentos

desconexos e involuntários

como músculos 

que funcionam 

quase imperceptíveis

dentro de corpos

inaudíveis

 

um movimento

incômodo

e brusco

nas vísceras

e no peito

me faz pensar

no tempo desfeito

 

não existe escapatória 

o movimento retorna

 

e avisa 

que viver

é despedir-se

em pequenas doses

do agora. 

 

  • SEXTO LUGAR

Insuficiência cardíaca

Thiago Costa Franco de Oliveira

 

Era um sujeito palpitante,

Coronário e cordial.

Num certo dia de pressão (destes de rotina sistólica e diastólica)

Tornou-se miocárdico e circular. Perdeu o ritmo.

A tensão foi aumentando, hipertensionando,

Sua vida átria se perdendo num sopro, num eco,

Num eco

Do que um dia havia sido.

O semblante arterial já denunciava sua vida cava.

A cada passo marcado, um dilema trifurcado, tricúspide. 

Procurou, sem sucesso, a válvula de escape.

Não conseguia mais lidar com a parada. Fartou.

 

Até que em uma tarde, numa das vias arteriais do coração da cidade,

Encontrou seu pulso novamente, transplantado na imagem de outro alguém.

Daquele dia em diante, 

o sujeito venoso, introspectivo e capilar

Descobriu que seu coração (científico, anatômico e solitário)

Era insuficiente

E só palpitava em par.

 

  • SÉTIMO LUGAR 

 

AS ENGRENAGENS DO TEMPO 

Dilson Solidade Lima

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

William Blake

 

Imerso nesse quarto, enquanto assisto

o excêntrico espetáculo das horas,

a eterna brevidade vem do agora

sangrar dentro do peito como um Cristo.

 

Dormindo a humanidade o sono injusto

das materialísticas escolhas

e cada um por si, em sua bolha,

reinando no seu trono mais venusto…

 

Um susto, um surto, um súbito cometa,

(breve, não mais que breve) leve giro

dos tiques nos ponteiros, um suspiro

e o penúltimo grão dessa ampulheta

 

caindo… Não se sabe ao certo o rumo:

para onde o curso dessa vida avança?…

“Descansa, (um vento passa e diz) descansa!

Essa existência é nada mais que fumo”.

 

Fumo e o mundo, esquálida miragem,

uma saudade, um estertor imensos,

um cirandar de átomos suspenso

no nada, no clarão da paisagem.

 

Um trago astral no ar abraça a lua,

de rubros um Rembrandt as sombras cobre…

Chove! Cai uma tênue chuva sobre

os paralelepípedos da rua…

Eu, em sondas siderais, paralelismos,

silente e só, as pálpebras pesadas,

olhava a imensidão e via o Nada

olhando para mim com seus abismos.

 

Cismo… O relógio marcha, a noite foge:

pavão de cinzas-estelares, plumas…

De longe vêm de novo abrindo a bruma

os dedos da manhã de um outro hoje.

 

Como uma serpe de fumaça morde

a carne tão macia dos espaços

a súbita expressão do tempo abraço

e escuto no silêncio os seus acordes:

 

Silêncio! — Essa vida: um só segundo…

Silêncio! — Um cometa cai no mar?…

Silêncio! — Escuta o tempo a sussurrar…

Silêncio! — Cai a máscara do mundo…

 

  • OITAVO LUGAR

 

indelével

Daniel Gomes Rodrigues

 

tenho na palavra minha panaceia.
nela também minha desgraça.
dilaceram-me os verbos
que correm sob minha carne
eufóricos e revoltos
ansiosos por uma liberdade
que jamais poderei oferecer
pois em mim tudo se encerra.

tenho no dia latente o essencial.
nele também minha desgraça.
os espantos me consomem
construindo meus castelos
ou demolindo, comigo, minhas pontes.
mastigam-me, ávidos ou deleitáveis
sem desejo qualquer além de ser
enquanto em mim tudo revivo.

tenho na clareza minha glória.
nela também minha desgraça.
implode-me a verdade, visceral
dissipando qualquer dor – mesmo que doa
e eu me diluo em mim e no tempo
em busca do fugaz momento
que possa tornar real e nítido
tudo que em mim registro.

sedento, sigo a fitar a jugular do dia
esperando que o instante mais cotidiano
me invada e me faça rasgá-la
pondo a jorrar o sangue (da verdade
do tempo da vida)
que necessito para escrever o que preciso
        – e que apodrece lentamente
        junto à carne de meu coração torpe
        que com nada mais se assusta;

sigo, porém, completamente ciente
de que nem o sangue mais belo
trará a clareza que ambiciono
às palavras que me devoram
e com as quais tolamente tento transcrever todas as coisas.

16.05.2022

  • NONO LUGAR

 

CORRE MENINO

RAFAEL NEVES DE SOUZA

 

Corre menino,
corre que o tempo é findo
tão curto é o tempo de graça
que já está se esvaindo.

As ruas de barro e asfalto
estão órfãs de pés descalços
de vozes que se estendiam
até o Sol se deitar.

Vai lá e corre menino,
corre que a vida é um sopro
pique-esconde e amarelinha
não se baixam no Play Store.

As calçadas e os quintais
estão sentindo sua falta
pule as cercas digitais
sinta a paz que a sombra é farta.

Por isso corre menino, abre os braços,
larga um pouco do teu celular,
pois os ventos vagando em teu quarto
são inimigos da pipa no ar.

Pseudônimo: DJEMERSON

  • DÉCIMO LUGAR

Cais do Valongo (1811 – 2016)

OVÍDIO POLI JUNIOR

 

No Cais do Valongo o tráfico é intenso.

 

Um entra-e-sai danado: chegam os pretos novos

recém-chegados das galés

 

Na vala comum do ancoradouro

em meio à maresia

 

ossos | cacos de cerâmica | vidro

Angola Congo Moçambique

queimados

e depois a pá de cal

 

Tanto negro soterrado pelo tempo 

esmagado nas engrenagens

da máquina mercante

 

Batem os tambores e soa o batuque sobre o couro quente: 

no Valongo ressoam trôpegos os sonhos

dos ancestrais escravizados

uns do lote banto | outros do lote iorubá

 

Sobre o antigo chão um novo piso de mármore:

pra vir Tereza Cristina Maria de Bourbon do outro lado do mundo

casar com Pedro II

 

Ainda hoje aqueles ossos | aqueles restos

aquelas peças todas aos milhares

abandonadas em um galpão

para catalogar:

 

um colar | um cachimbo

uma cesta para colher grãos

uma velha colher de madeira

uma bengala de castão

 

um trapo sujo | uma tíbia de criança

um cesto de bananas para vender

 

[vestígios] [ornamentos] [artefatos]

soterrada a memória de todo um povo

 

Naquele sítio ar-que-o-ló-gi-co do Rio de Janeiro

funcionou o velho mercado negreiro

(o maior das Américas)

encoberto pelo desprezo e pelo tempo

trazido à luz graças a uma espécie de erupção vulcânica:

 

um ti-ti-ti na região portuária

obras a pleno vapor pras Olimpíadas

e o VLT – veículo-leve-sobre-trilhos

(entre austeros mapas concebido)

Leia os poemas finalistas da categoria regional!

PRIMEIRO LUGAR

O QUE É CULTURA

Rodrigo Lopes da Costa

 

É escrever a óleo o boi pantaneiro sobre a tela.

Feita por um mané qualquer e pouco importa

Se dilurida em Barro, ou

desinventada no Marinho.

 

É coisa feita por mãos calejadas 

que entalha a figura de um bugre 

numa raiz de macaxeira.

 

É samba cifrado em acordes;

Entoado no berrante;

enquanto o velho trem atravessa o pantanal.

 

É luz, câmera e ação.

É um sorriso fotografado;

Um passo ensaiado,

Um texto decorado, ou 

Um ato encenado pelos palcos da vida.

 

É o pantanal, a piraretã e o ninhal

São os Guaicurus, os Kaiowas e os Terenas

A pintada, o dourado e a capivara;

É o tereré, o jacaré e a seriema;

 

É nosso estado, 

O manso e o regato

É o rio que nos une; 

A cheia que nos separa.

 

SEGUNDO LUGAR:

Teatro de Sombras

Olegario da Costa Maya Neto

 

Flauner sem destino, caminho a passos lentos a esmo,

Procuro com afinco encontrar algo esquecido. Pasmo,

Diviso ao longe cena daquele velho conhecido, meu passado,

Que já faz bater mais forte no peito o músculo cansado.

 

A chuva cai em gotas miúdas, sem pressa, mas sem trégua

Vai molhando as pessoas sisudas, suas roupas, almas e olhos,

Prisma líquido, ela transpõe com a imaginação a légua

Que separa o pretérito querido dos preteridos escolhos.

 

Caminho devagar pela velha cidade da minha juventude

E reencontro a cada esquina uma parte perdida de mim

Cada local desperta uma lembrança visual de dentro desse açude

Infinito, esse teatro de luzes, cores e sombras sem fim.

 

Vejo um a um meus amigos, minha amada, até os meus

Eus mais jovens. Cada cena me provoca uma emoção,

Evoca vozes, ecos passados, na ensurdecedora mudez elas vão

Ajudando a me despedir daqui, de mim, do que vivi, a dizer adeus. 

 

TERCEIRO LUGAR

Rosa

Reginaldo Costa de Albuquerque

 

Pleno sol matutino anima os tons de opala…

A luz, num jorro, move os gonzos da janela

e no ambiente ancora aflita, e lenta, e rala…

Um triste quadro, ainda atual, se revela.

 

Rosa, sobre o sofá, sem desejos nem fala,

dorme… e já nenhum sonho adorna o sono dela…

No alto, aos borrões de seiva escarlate, a fitá-la,

tela onde um moço, firme, enlaça a noiva bela.

 

Rosa, folhas ao chão, não palpita-lhe o seio…

Pende a corola… ao lado, a tesoura entre assombros

de furtá-la do hastil, num rasgo imenso e feio…

 

E ei-la a fauce murcha abre… um sopro de alma aflora

e ergue-se e sonda e foge e leva um grito aos ombros:

O tempo de quebrar amarra ou jugo, é agora!…

QUARTO LUGAR

Retratos cotidianos

Adrianna Alberti

 

Eu vejo o belo na imperfeição

Em cores manchadas e quaradas 

Em cortes supostamente retilíneos

Curvas e pontas afiadas sombreadas de sol

 

Há beleza na rotina suada

Proporção vagabunda tão digna de museu

O diário encanta como uma peça elaborada em exposição

Retoques feitos por muitas mãos sem nomes

 

Boniteza explícita em pichos nos muros 

Rostos cansados e roupas usadas,

ora aglomerados, ora vazios.

Às vezes, o olhar vago, como o meu,

observando através,

mais o nada do que as horas perdidas

 

Há belo no rachado das peles,

nos calos e tufos oleosos de cabelo

Cicatrizes esmaecidas contando sobre peles experientes

Vozes desconhecidas, digitais, calor de abraços,

sapatos desgastados, pneus carecas

 

Algo de bonito no descanso do asfalto de beira de estrada

Os galhos retorcidos antes em flor, antigos de estações

Cinza de ruas esburacadas, descuido e sujeira

Árvore em prantos de cupins, sorvendo fumaça e chuva esparsa,

em verde seco de jardins

Descuido de um móvel cheio de poeira vermelha, 

vassouras esquecidas ao relento.

 

QUINTO LUGAR

BALADA PARA IPÊS URBANOS

Volmir Cardoso Pereira

 

Um homem bem vestido dobra a esquina

Pensando em bitcoins e noticiários,

Quando para, estático na brisa,

Ante a árvore e os cachos de seus galhos.

 

Um homem bem vestido, sob os prédios

Vê, terrível, nu, nédio: o Ipê.

 

A flor escandalosa, um barravento

Acendendo as meninas desses olhos

De gente envelhecida antes do tempo.

O ipê: entre julho, agosto e setembro,

Quando as quimeras de fim de ano ainda estão longe demais

E os arlequins e carnavais foram todos soterrados.

Quando o homem, formiga, morde os lábios no inverno

E descobre que não juntou o necessário.

Também se foram (que averno!) as andorinhas e as cigarras 

Pois o verão já se desfez,

E não sobrou nem prata, nem voo, nem canto, nem nada.

Repare bem, hei, você,

Nesses três meses de cinza, poeira e muito vento,

É que se vê: o ipê.

 

Flor magnética arrastando nosso olho enferrujado.

Prestai atenção: o ipê amarelo, esse ouro delicado,

Como um raio que se congela, enraizado no chão,

Riqueza gratuita em meio à urbe e seus estragos,

As pétalas feito chuva, mínimas mãos

Jorradas dos braços de Gaia: seus afagos.

 

Ipê, que também é roxo, buquê litúrgico, quaresmal, 

Espírito todo carne, arte, Van Gogh vegetal,

A púrpura no fim do dia,

O riso possível, espirro na pólis, pólen de melancolia.

 

Ipê, branco, inadmissível, extraordinário

Como a festa de um luto oriental

Irmão das cerejeiras, amigo tropical de japoneses imigrados.

Um sândalo, um bálsamo, o perfume na íris, imemorial.

 

Ah, quem dera morrer como as suas flores na calçada,

Semeando só a cor, sem querer colher mais nada.

Amarelo, roxo e branco, ipê, espanto: o que dizer?

Tua tinta nos fere e quase nos envergonha,

Tanta beleza nesse ar sujo em que se sonha,

– Pra quê?

 

SEXTO LUGAR

Aos bugres do Mato das bandas do Sul

Marcia Regina Scherer

 

Eis que o chão, nossos pés pisam

Descalços, rachados, avermelhados d’apoeira

Eis que aos céus, calejadas das ramas, nossas mãos se erguem 

Em prece

 

Nossa senhora dos bugres de cá

Olhai por nós

 

Fazei crescer a mandioca, a erva do mate

A planta do chão, a palma da mão

Que nos caia a chuva do céu

E lave o tiro 

E lave a morte

E toda a sorte

Que nunca nos serviu

 

Que’a sina de ser bugre não seja nosso fardo

Ou nosso castigo

Que’o nosso canto, bugrado, seja ouvido

E como mantra entoado

 

E sem querer abusar da ousadia que me dá

Se não for favor demais

Traz pra gente um tiquinho a mais de riso

Que é pra gente celebrar 

Os pés no chão

A mão na enxada

A água que cai

E a alma lavada

 

 

SÉTMO LUGAR

PEIXE DOURADO 

Catiane Duarte Diniz Rezende

 

Senhor Gastrópodes era um caramujo temperamental. 

Tropecei nele enquanto procurava folhas no quintal. 

Esbravejou: Mal frequentado esse Pantanal! 

Escondeu em sua concha espiral. 

 

Eu, humano, segui. 

Um, dois, três, quatro passos … 

 

Escutei o Senhor Quero-Quero reclamando da minha aparição. 

O vigilante saltou para defender seu território … pedi redenção!

Salvou-me a capivara, ofertando sua benção. 

Após o susto, andorinhas fizeram canção. 

 

Eu, humano, segui. 

Cinco, seis, sete, oito passos … 

 

Cheguei num riacho, correnteza brava, nas margens do rio, a iguana.

A cauda chicote abria passagem para dentro da mata, sua cabana!

Ela fugia da onça pintada, lá no barranco à paisana.

Acovardada com eximia galhardia, perdi a chalana. 

 

Eu, humano, segui.

Nove, dez, onze, doze passos … 

 

Sede, cansaço, atirei-me no tronco de uma árvore frondosa, estava amargurado.

Avistei uma garça real cantando, pousou nas manchas do ipê amarelado.  

Um velho perguntou se eu tinha algum desejo e bateu o cajado … 

Eu? humano? Acordei nadando … virei um peixe dourado. 

 

OITAVO LUGAR

PARTO

Ligia Tristão Prieto

 

Escrevo

Pra parir o mundo

Pra nascer de novo

Pra comer segundos

Escrevo de nascença

De sobrevivência

De natureza

Dando à luz 

As palavras mortas

A solidão do porto

As tragédias constantes, 

 

Escrevo

Daquele sangue que escorre

Que não vem da vida

E nem da morte

Que vem do pulso

Que dança insano

Na insistência profana

De dar, de dar, de dar

À toda vaca louca

Qualquer chance

De vida

No meio de tanta lama.

 

NONO LUGAR

Visita onírica a Papelópolis

Gabriel de Melo Lima Leal

 

noutro dia em sonho de jornada

a papelópolis olvidada 

estranhoso visitei

 

percorria a cidade de pálidas

esculturas atabalhoadas 

que me olhavam como a lei

 

automobilísticas fumaças

fundiam-se avolumando as baças

fantasias do escarcéu

 

gotejavam condicionadores,

a água tragada dos servidores

ignotos do alto céu

 

ao passar ao pé do prédio infindo

li na arcada e estanquei ouvindo

papelópolis em outono

 

ao mirar acima, pras janelas

via as laudas em três vias, belas,

delas duas para o sono

 

caducas pétalas burocráticas

descartadas à estação errática

pela bruma citadina

 

a umidade vinda das paredes

não era extrato delas, mas deles

dos burocratas sovinas

 

e escorria como escarro do alto

até que as gordas gotas em salto

desgrudavam do edifício

 

e já no ar se abriam como bombas 

transformando-se em escuras pombas

num festim adventício

 

e atentei que nesse rebuliço,

indo ao chão num pouso alagadiço

as pombas se desfaziam

 

num chorume negro e movediço e

desse tão repunante serviço

ternos, gravatas se erguiam

 

DÉCIMO LUGAR

Já Não Mato Formigas 

Tamara Prantl Mangieri Figueiredo Ribeiro

 

Agora já não mato as formigas

Nem quando elas me picam

No meio da clareira um dia

Elas me disseram da vida

 

Para quê mais 

Depois de dois tudo se refaz

Como é a beleza dos golpes

De açoite em açoite

Mostra do que somos feitos hoje

 

E percebo a tristeza 

Em mim tão preenchida

Fosse um dia de domingo

Eu não teria morrido

 

Mais que um eco e menos que o épico

Sem rumo o céu aponta

Com a estrela do Cruzeiro

Me lembro que me fiz assim

Mais um torto gauche

À moda brasileira.

Conheça os finalistas da 34ª Noite da Poesia!

Na semana passada, foram revelados os finalistas da 34ª Noite da Poesia. A live onde os finalistas foram revelados pode ser assistida clicando aqui.


Confira os finalistas regionais da 34ª Noite da Poesia:

CIDADE NOME NOME DA POESIA
Campo Grande Adrianna Alberti Retratos cotidianos
Campo Grande Catiane Duarte Diniz Rezende Peixe dourado
Campo Grande Gabriel Nelo Lima Leal Visita onírica a Papelópolis
Campo Grande Ligia Tristão Pietro Parto
Campo Grande Marcia Regina Scherer Aos bugres do Mato das bandas
Cassilândia Olegario da Costa Maya Neto Teatro de sombras
Campo Grande Reginaldo Costa de Albuquerque Rosa
Campo Grande Rodrigo Lopes da Costa O que é cultura
Campo Grande Tamara Pratl Mangieri Figueiredo Já não mato formigas
Campo Grande Volmir Cardoso Pereira Balada para Ipês urbanos

 

Confira os finalistas nacionais da 34ª Noite da Poesia:

CIDADE NOME NOME DA POESIA
Valença/RJ Carlos Bruno Silva Barbosa Guerra do Paraguay
Salvador/BA Daniel Gomes Rodrigues Indelével
Brasilia/DF Dilson Solidade Lima As engrenagens do tempo
Rio Grande/RS Léo Ottesen Lar
Rio de Janeiro/RJ Mauricio Limeira dos Santos Quebranto
Paraty/RJ Ovidio Poli Junior Cais do valongo
Itacoatiara/AM Rafael Neves de Souza Corre menino
São Paulo/SP Thiago Costa Franco de Oliveira Insuficiência Cardíaca
Campinas/SP Valéria de Cassia Pisauro Lima Sina estradeira
Salvador/BA Zilca Tosta Coutinho Movimento

 

O resultado final será revelado dia 15 de setembro, no Teatro Glauce Rocha, 19h30m. Junto com a palestra do poeta Allan Dias Castro. A entrada é gratuita.

UBE-MS divulga os poemas vencedores do 33º Concurso Noite da Poesia 2021.

POEMAS VENCEDORES – BRASIL

 

1º LUGAR:

IMÓVEL

Autor: Carlos Eduardo Canhameiro (São Paulo-SP)

 

porque sumiram

os meninos

de Belford

Roxo

 

e o (nosso) país

seguiu

[mais uma vez

impávido colosso

 

este poema não

consegue ir

adiante

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2º LUGAR:

 

SOBRE AFETO

Autora: Maria Samara Fernandes da Silva

(Baturité – CE)

 

 

Nas cores

Nos laços e deslaços,

Me desamarrei feito o sangue que nos escorre.

Meus olhos se alinharam feito sol e lua

Em uma oscilação de encruzilhadas de afeto.

 

Discorre em mim a fragilidade de beleza rara

E agora não corre, fica no colo que te socorre,

[desa’gua

deixa que teus elos se enlaçem

desamarra os fios que tentam te alisar.

[ Se afasta

Deixe que o tempo te abrace

Rechace os que te atormentam

[achegue-se

Veja quais colos te acolhe

[Transforme em lar.

Perceba que nem todos você pode chamar de casa.

Sinta que o tempo já vem distante, apressado em passar

[Então passe

Que na pressa do tempo, te encontre

Retorne

E assim, em abraços apertados

Se perca, mergulhe, se afogue.

esqueça que sabe nadar.

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3º LUGAR:

ESTRIBILHOS

Autor: Weslley Moreia de Almeida (Feira de Santana – BA)

Desfiz um poema

eliminando versos

acrescentando vácuos

para a percepção nova do silêncio oculto

na beira do rio das palavras.

 

Cortei uma rima

como quem despe estribilhos

como quem quebra uma corda

enquadra uma roda

desafina um instrumento:

e toca

dissonâncias

num insólito ritmo

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4º Lugar:

O LUTADOR

Autor: Djavam Damasceno da Frota (Fortaleza – CE)

atrevo um prego

à pele da palavra

: larva

que leve estala,

estreita estrela que

linha a linha

ainda

me navalha

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5 º LUGAR: a autora não autoriza a divulgação

 

6º LUGAR:

(O autor enviou e-mail desautorizando a publicação)

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7º LUGAR

ALVORADA

 

Natã Rogerio Da Silva Canevazzi (Bebedouro – SP)

 

 

 

Vês velejar pelo fino átrio que se esconde

A prova, as magoas que de todos os rios fluem

Dos vagalumes que a noite não respondem

Pelas fumaças que no ar já não poluem?

 

Que modéstia emblemática reza feita

Que do rosto fino escorrem rios de gritos

Como se fossem mortas plantações de trigo

Abandonadas a um vil destino réu, sem colheita.

 

E do sol que sem piedade faz queimar a nuca,

Será ainda dele toda a culpa do calar e amordaçar

Da pele sem ternura, agora escura e castigada?

 

O tempo há de mostrar aos homens na alvorada

Quando corpos imóveis se estenderem nas calçadas

e um sentimento de culpa os tomarem como nunca.

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8º LUGAR:

                                                    ECO DOS ABISSAIS

Autor: Venicio Conceição Souza Garcia (Parintins – AM)

Ampulheta d’água

Tempo líquido

Descido dos Andes

Vendaval das horas

Círculo rede moinho

Contemplativo ser

Deusa mística  degradê  …

Ampulheta d’fogo

Sol e larvas

Alter ego

Curvas do corpo

Passado  amuleto

Sentimento amor lado

No peito da pedra verde

Do meu ser transfigurado…

Ampulheta d’vento

Transparência dos sinais

Redoma de sentimento

Eco dos abissais

Abismo letal

Violação do mundo

Pudico e imundo

Pandora do desejo

Convergência do que vejo…

Ampulheta d’terra

Filhos nascidos do barro

Do húmus esculpido no mármore

Alma do dia

Corpo da noite

Reverso  e mundano

Composição perfeita

Arte dos ancestrais

Pintada no corpo

Criação da vida

Ampulheta  elementais….

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9º LUGAR:

ANGU DE FOME 

Autor: Nicoly Valaska dos Santos (São Paulo-SP)

­­­­Farinha boa é a que forra o bico

o siso cola em saliva feito gordura

dura, rasgando desce;

Farinha boa é a que faz músculo,

goma de repuxo estrepe,

baixa a fuça e engole em seco, sempre.

 

Fubá, feijão, água e sal.

Não tem gás arma brasa no quintal;

Faz sopa do perigo que é o menino

correr chamuscado de pança vazia,

domar o fígado com angu capataz.

 

Cumbuca de microplástico

charque de sódio entope

ocre a veia coágulo;

Caldo amarelo de triângulo

carece de muita farinha boa…

Que diabos há na minha sopa?

 

A mão em riste triste agradece

dieta paleolítica, alta estética promete

Fuça cadavérica eiva e saliva

(dizem que é bom pra cabelo em queda

e ainda disfarça o mau cheiro).

Necropolítica é o açougue em fila:

farinha pouca, o do boi primeiro.

 

Em boca ressequida não entra mosca,

nem fruta, leite, óleo, hortaliça ou arroz.

Aprenda a cozer cartilagem em louça:

– Sufoque a rouquidão feroz;

– Disfarce a pouca caloria, ria;

– Raleie o angu peneirado;

Está pronto o algoz.

 

Compreenda, Senhora:

não há receita nessa vida

que possa imitar o manjar

com gosto de matar

a carência de carne

com nervo do osso e do bico.

 

A carne mais barata do mercado

é a minha!

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10º LUGAR

APOCALIPSE SEGUNDO DIÓGENES

Autor: Vítor de Lerbo Carvalho (São Caetano do Sul-SP)

 

enquanto me livro deste soneto
torço para que encontres tua luz
ou alguém para carregar tua cruz
ou então um punhado de cianureto

anjos já não cantam em teu coreto
teu ouro é seco e teu olhar não reluz
para tudo que a paixão não traduz
vêm os versos do primeiro terceto

falhas abrem as pernas como mães
cicatrizes jorram novo sangue híbrido
nas sombras coleiras devoram cães

que o armagedom não seja interrompido
pois em teus devaneios ermitães
o paraíso será esculpido

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POEMAS VENCEDORES MATO GROSSO DO SUL

1º LUGAR

AMARELINHA

Autor: Reginaldo Costa de Albuquerque (Campo Grande-MS)

 

Sobe o telão que o tempo não mesquinha…

Num recanto de praça, ao sol mais brando,

um mosaico infantil se equilibrando

na leda animação da amarelinha…

 

O céu bem perto… e a chave, uma pedrinha…

Quadro a quadro e eis a criançada, quando

não se pensava em truque e ardis, brincando

entre erros, falhas ou pisões na linha!…

 

A mão do acaso rebobina a fita…

E ali, bandeira em punho e voz em grita,

a alma de uma pátria, êxule, ferida…

 

Desenhos de hoje, amar/é/linha vaga…

Ora um céu de poder… cega e embriaga…

Ora o céu do ideal… redoura a vida.

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2º LUGAR

A ESPERANÇA QUE RELUZ NO SOM DO SOL

 

Autora: Adrianna Alberti (Campo Grande-MS

 

Seis e vinte sinto meus ouvidos acordarem

ao som agudo da sinfonia das araras canindé.

 

Os dias ruins reluzem com o sol forte

através do céu de tons azuis tão brilhantes.

Meus pés pisam em ruas floridas de ipês coloridos,

esses belíssimos tapetes para olhos sem tempo.

 

Escorre como o inverno, horas estranguladas

entre os grossos dedos de uma ansiedade barulhenta.

Afogo a arritmia em três doses generosas de café,

novamente, abro mão do sono insuficiente

em sua espuma dourada.

 

Então,

 

deixo a mente chover nas cores vívidas do seu arco-íris,

minhas quimeras dançando com a miríade

incompreensível de suas tantas nuances.

Repouso de olhos abertos, imersa em suas formas abstratas,

reflexos de miragens de sonhos lúcidos.

Respiro o oxigênio em seus sons suaves.

 

Absorta entre lilases e roxos,

reverbero o sorriso esperançoso dos exaustos.

 

E tento, de novo.

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3º LUGAR

CORPO MATOGROSSO

Autor: Fábio Gondim (Campo Grande)

Alagados meus olhos,

um novo amor

nascente prosa.

 

Passeia em meu cabelo

a música do vento março.

Na pele, colorau e mate:

meu corpo orvalho imita

o viço urgente dos camalotes.

 

Cerrados meus olhos,

um velho amor

poente segredo.

 

Rompem em meu ventre

óvulos pequis.

Outubro menstrua blasé:

meu corpo febril imita

a nudez agreste dos pés de ipê.

 

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4º LUGAR:

JARDINS ESTÁTICOS

Autora: Diana Pilatti Onofre (Campo Grande)

na simetria das pedras

o silêncio faz crescer musgo

a palavra úmida na boca da rã

cala histórias noturnas

 

e eu sonho girassóis

 

sobre a pálpebra da noite

grilos trincam estrelas

a palavra-estilhaço escorre calada

de algum sonho violado

 

e eu transcrevo minhas imprecisões

 

uma ave desperta auroras

a palavra neblina paira sobre a relva

no ponto de ônibus um hiato

uma mulher a mastigar versos

 

e eu admiro o cílios do dia

 

o sol arde uma rima

há outra palavra

na aba do crisântemo

a encarar inerte o meio-dia

 

eu guardo pétalas e saudade entres os lábios

onde se faz poesia

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5º LUGAR:

 

HONRA E GLÓRIA, MARIAS!

Autora: Eva Vilma Souza Barbosa (Campo Grande – MS)

 

Benditas sois vós, Marias,

com suas inspirações para vivermos

à imagem e semelhança de suas forças.

 

Benditas sois vós,

com seus corações pulsantes

cansados de batalhas,

e nunca abnegados da luta.

 

Ditosas sois vós, Marias,

corpos incandescentes,

corações, olhos, bocas, vulvas,

vasos sanguíneos, glande,

tudo latente.

 

Ditosas vós,

que dais de comer aos sonhos

e de beber às buscas

com o néctar da fartura.

 

Benditas e sagradas, vós, Marias,

com suas incontáveis ressurreições

no terceiro instante subsequente

às tantas mortes germinadas do patriarcado.

 

Benditas Marias!

de todas as cores

de todos os corpos.

 

Meu coração se curva

às vossas forças.

alma minha faz honrarias

aos vossos ensinamentos,

honra e glória, Marias!

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6º LUGAR

A PESTE E O PAÍS QUE SE PERDEU

Autor: Volmir Cardoso Pereira (Campo Grande)

 

Conta-se que do Oriente veio a Peste

Viajando em narinas e voos celestes,

Flagelo das urbes, foices aladas

Sim, a Peste, aerossóis e fumaça.

 

Conta-se que homens e mulheres perderam os deuses e as ilusões

Quando viram nos caminhões os corpos empilhados.

Rios e rastros de sangue escorrendo:

No stop dos semáforos das ermas vias.

Nas bocas rubras de manequins abandonados nas vitrines.

Nas taças de vinho sujas na pia.

 

Conta-se que o povo, meio morto, meio vivo

Acumulava lutos, uivos, raivas, insônias, carências, azias,

Decepções no delivery, teorias conspiratórias, demências, dívidas,

Portas fechadas, ausências, likes, pornografias.

 

Conta-se que Giovanni Boccaccio e Albert Camus

Quedavam-se ali, nos átrios do devir

Zombando dos homens que tentavam lucrar com a Peste:

Nos laboratórios de vacinas, púlpitos, milícias,

Licitações, mise en scène de arlequins fascistas,

Escritórios de Wall Street, negócios da China, prostíbulos em Hanói,

Cloroquinas da Índia, algoritmos, pirâmides e bitcoin

Enquanto urubus, ah os milenares urubus,

Planavam num círculo cada vez mais espesso entre o cinza e o azul

Bailando rasantes sobre o pasto-cadáver de rotas cidades.

 

It’s a hard rain’s gonna fall.

 

Conta-se que, ainda assim, cantaram a esperança debaixo do sol.

E que mulheres, crianças, negros, guaranis, sem-terra, sem-teto,

Imigrantes, travestis e todos os assassinados no deserto

Guardaram em cantis sua fúria acumulada

Em cada soco, facada, chute, tiro, forca, cruz levantada,

Para decerto choverem seus corpos delinquidos e líquidos

Sobre fímbrias e fronteiras esquecidas

Riscando no chão um mapa de água salgada

De um novo país, placenta de lágrimas,

Esculpindo com estecas de ossos torturados

Animais marinhos, lírios selvagens, falésias, formatos alegres

Semeando danças, chuvas, banhos, beijos e festas

Para depois, muito depois da Peste.

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7º LUGAR

ALBOR

Autor: Fábio Coutinho de Andrade (Campo Grande)

 

No albor da vida surge o amor, em esplendor

Seguramo-lo: tornamo-lo parte de nosso ser

O dia vem em canto mavioso, com seu fulgor

E o instante queremos em nossas mãos reter

 

Aurora! Anunciação da estação ainda por vir!

Primavera! Flores multicores o chão a cobrir

As áleas de amores-perfeitos parecem enfeitar

A passarela por onde irás, até mim, chegar

 

No albor da vida surge o amor, em esplendor

Vem de longe, trazendo consigo novo olor

Prenunciando sutilmente a nova estação:

O perfume das flores-por-vir em gestação

 

Que medram e invadem com doce aroma,

Aos atentos amantes assim se oferecendo,

Durando apenas um instante, o momento

Tal qual beijo fugaz, na memória eterno

 

Ocaso! Secas folhas no chão a lembrar

A alameda que outrora nos sorriu!

Outono que a sequidão n´alma traz

Que o inverno espera para descansar em paz!

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8º LUGAR:

LEIAM

Autor: Erick Vinicius Mathias Leite (Campo Grande)

 

Não vês, leão? O sol no girar dos signos

Orgulho dilata como alta brasa

A juba abaixa frente espelho d’água?

Afoga-se em si como mil narcisos

 

Que vês, leão? Trom soa por Judá

O Xácti divino de Nara-Simha

Shakya, Buda Gautama ruge o Dharma

Genro de Maomé, fera de Alá

 

Não vês, leão, sua luz te cegar?

Um animal de existência execrável
Corpo que não passa de um avatar

 

Mais sentidos inhabitam, notável!
Ainda mesmo que tentes enterrar

A carniça já cheira insuportável.

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9º LUGAR

A SAGA DOS GUATÓS

Autora: Gleycielli de Souza Nonato (Coxim – MS)

Gua-dá-can viam as cheias.

Alagando terras brejeiras;

Embarcações de cambará com zinga de caneleira

Levavam famílias inteiras.

 

Depois veio a guerra.

Família contra família.

Trocamos os gritos felizes de crianças nos alagados,

Por gemidos de soldados.

 

Então, a batalha da carne.

Sarampo, catapora, febre amarela.

Mataram nosso povo

Pouco a pouco,

Despejado em banguelas.

 

Logo após os abatedouros de jacarés.

Fomos presos e enjaulado

Como nem se faz com animais.

A nossa cultura foi confundida

Com a falta que a cultura faz.

 

Por fim, os fazendeiros,

Nos expulsaram de nossas terras

Soltaram gados, gygyago rô;

Nos acuaram em uma ilha,

Nos espalharam em periferias.

 

Os mais velhos adoeceram de desesperança;

E os mais novos se tornaram peões.

Trocando a chicha

Pelo veneno da cana.

 

Colocaram cerca onde éramos livres;

Nos deram nome, religião e poucos abrigos.

Afogaram a nossa existência,

E não nos deram motivos do etnocídio.

 

E das cinzas das fogueira nossas almas vão insistir:

Gôcô aréro tyto vogum o ge com.

– Nós somos tão fortes, mas tão fortes,

Que nem a força nos fará desistir.

 

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10º LUGAR

(DES) HUMANIDADES

Autora: Luci Dalva Maria de Souza (Campo Grande)

 

No arcabouço da memória

Sou fortaleza,

No suor acorrentado

Fiz a riqueza de suas terras.

Suas??

Ironicamente  fundamentado nas Leis…

Lei de Terras… Suas terras? (ironia)

Sonho da cor livre!!!

SIM

Quase 500 anos

E ainda amargam os meus dias

A história que se repete

No apelido…

No deboche…

Na sexualização,

Objetificação do corpo,

Na ação velada e mesmo desvelada,

Que oprime,

Reprime,

Que Mata.

Mata de muitas formas e por muitos motivos.

Qualquer motivo!!!

Porque refugiei-me em Quilombo

Porque confundiu-me

Porque corri,

Porque fiquei,

Porque desisti

Porque dentro de uma Universidade entrei

Porque, resisti,

Tantos são os porquês,

Mas eu digo BASTA!!!

Sou milhões de outros eus,

Sou Nação que grita

Sou elo forte da corrente

SOU LINDA

SOU PRETA

SOU A GARRA, AGARRADA AOS FIOS DA MEMÓRIA

SOU AFRICA

SOU BRASIL

SOU HISTÓRIA

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